quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Meus Cinco Sentidos

Tudo começou com um olhar,
minha visão capturando a tua face.
Olhares nossos sendo cruzados,
alguns poucos me forço a desviar.

Então ouvi a tua voz,
de uma rouquidão estremecedora,
o som quase desafinado,
você chegando aos meus ouvidos.

Nos aproximamos e eu senti teu cheiro.
Um aroma sobrenatural, amadeirado,
meu olfato enlouqueceu de vontade.
Quis respirar mais profundo o que é teu.

Toquei tua mão, áspera e viril.
Toquei teu braço, tão teu
que eu quis que fosse meu.
De imediato, forcei um contato.

Não pude segurar o beijo.
Finalmente senti teu gosto,
Amargo e doce, diferente e igual,
um gosto teu, só teu.

E foi por ti que eles vieram,
se aprofundaram.
Aticei meus sentidos somente ao teu lado.

O conto do Corvo ou coisa que valha

Todos os dias quando o sol se punha, o Corvo pousava calmamente na goiabeira seca do quintal e começa a berrar. Berrava, gritava, esperneava, e ninguém ouvia o Corvo, logo ele, que nunca havia feito mal a ninguém e apenas trazia notícias - sérias notícias -. Todos os dias pousava no galho mais alto e berrava o obituário, ninguém se dignava a abrir a janela ou a porta, a sair da casa prestar atenção aos recados do Corvo. Entristecido com tudo o que acontecia, o Corvo foi visitar alguns amigos que pousavam em uma praça, amigos muito viajados, que já haviam ido a todas as partes do mundo noticiar as mortes, alguns até noticiaram mortes importantes, como a de reis e rainhas, presidentes e faraós, tais corvos lhe disseram que era melhor partir para uma terra muito bonita, onde todos estariam atentos ás suas notícias, agradecendo as informações com generosos pedaços de pão e até mesmo longas conversas. Decidido, o Corvo se despediu emocionado da família em que estivera por anos e se pôs a voar. Voou, voou, viu brisas e tempestades, lagos e mares, até chegar á tal terrinha, onde corvos eram amados e respeitados como deveriam ser. Batendo asas, comemorou sua chegada ao tal esperado lugar pousando em uma bela árvore, de madeira avermelhada e tronco firme, nem tão alto que não pudessem ouvi-lo, nem tão baixa que não ficasse imponente. Berrou, berrou, berrou. Veio uma senhora vestindo luto, bem velha, as marcas da vida em todo o rosto, apoiou-se ao batente da janela e ouviu tudo o Corvo tinha a gritar. Quando o Corvo silenciou, a calma senhora retirou-se para dentro do sobrado azul desbotado em que vivia e voltou com um enorme pedaço de pão. Sorriu e começou a falar com o Corvo enquanto jogava pedacinhos de pão em sua direção. O Corvo ficou satisfeitíssimo com tanta hospitalidade e generosidade, pensou consigo mesmo que aquilo era seu maior sonho sendo realizado, pensou em como era bom alguém que quisesse ouvi-lo e contar-lhe da vida. Passaram se meses, e o Corvo, antes feliz da vida com a generosa senhora, começou a se deprimir. A senhora era sozinha e vivia triste em seu luto, quase não saia de casa, quase não recebia visitas, quase não se movimentava. O Corvo, mesmo sem querer, comparou tudo isso com o que acontecia em seu antigo lar, onde crianças corriam o dia todo, haviam festas e visitas, brigas e abraços, e de repente sentiu um vazio no peito, um sentimento dilacerante, um dor cortante, sentiu uma saudade devastadora de tudo que vivia antes, por que o sol que batia aqui não era o mesmo que batia lá, esta árvore não dava frutos e as flores quase sempre morriam de secas. Pensou por dias, meses, semanas, e no fim das contas decidiu voltar para a velha goiabeira, onde não lhe davam atenção mas ele se sentia feliz da mesma maneira. Em seu último dia naquela árvore, deu suas notícias calmamente e esperou a senhora dizer tudo o que dia a lhe dizer, quando ela entrou para buscar o pedaço de pão como de costume ele pousou no batente da janela e a esperou. Ela, tranquilamente, passou uma das velhas mãos sobra a cabeça do corvo, deu a ele o pedaço de pão e disse-lhe: "Eu sei que tu vais embora corvinho, tu vais como os outros se foram. Faço o que posso para dar-lhes companhia, mas nunca é o bastante... Vá e siga o teu caminho, vá, vá logo pois não gosto de despedidas." Seus olhos marejaram e duas lágrimas caíram. O Corvo bateu asas, e ao invés de ir embora como tinha planejado, ficou. Ficou por que aquela senhora tão triste e sozinha precisava mais dele do que ele precisava da família feliz e alegre onde vivia antes, e quando alguém precisa mais de nós do que nós precisamos de algo, alguém precisa ceder, e quem cedeu foi o Corvo. A senhora morreu pouco tempo depois, e então ele voltou para o seu antigo lar, voltou feliz por ter estado com aquela senhora até os seus últimos momentos. Algum tempo depois, quando as crianças já eram adultos, e os adultos já eram idosos, foi a vez do Corvo ir. Ele morreu no pousado no galho da goiabeira, depois de dar sua últimas notícias. E você? Já cedeu por alguém? Cederia por alguém? Você faria o que o Corvo fez?

sábado, 17 de dezembro de 2011

A primeira manhã

Acordei e me deparei com aquela cascata de fios negros jogados pelo meu travesseiro, suas costas nuas pareciam sorrir deliciosamente para mim enquanto o sol da manhã adentrava pelo quarto. Ri e comecei a me lembrar em como a noite havia nos trazido até a cama. Ela começou a se mexer e acabou se virando para mim, os olhos já estavam abertos e o sorriso era estonteante. "Bom dia", dissemos um para o outro em uníssono e neste exato momento percebi que tal sincronia nunca havia acontecido com nenhuma outra.  Me levantei e preparei café, ela insistiu em beber leite (não gosta de café, ao que parece) e conversamos sobre casualidades, éramos parecidos e ao mesmo tempo diferentes, formando uma mescla surpreendente de aprovação e discórdia, deixando tudo ainda mais quente e exitante. Ela se vestiu e me beijou calorosamente, pressenti que era uma despedida e fiz o que pude para adiá-la. A despi por inteiro e fizemos amor novamente, desta vez foi tudo ainda mais voraz e intenso, houveram mordidas e arranhões, arrancamos fios de cabelo e perdemos o ar. Dormimos algumas horas e quando ela acordou já era noite no meu canto do mundo, desta vez ela se vestiu sem pensar, quase correndo, beijei-a e ela saiu pela porta. Fui para a varanda e fitei a lua cheia que iluminava a cidade chuvosa, sua luz sendo refletida na vidraça dos arranha-céus, as gotas de chuva que caia pareciam pequenos diamantes jogados pelo asfalto. Foi um ótimo dia porque passei cada minuto ao lado dela. Não sei se a amo ou se estou apenas apaixonado, mas posso afirmar que sua companhia me é extremamente agradável, insanamente prazerosa. Não posso procurá-la por que nem sequer sei onde a encontrar, mas sei que quando eu (ou ela) precisar nós nos encontraremos. O nome dela? Poesia leve e melodia doce aos meus ouvidos, segredo completo e de Estado, ninguém jamais poderia saber mas não me segurei e vou ter que revelar. Seu nome é belo e calmo, eu me assusto sempre que ouço, não importando o sentindo, seu nome é Alma, minha querida Alma, minh'Alma...

Ela e ele, ou ele e ela?

Ela

"Passo horas tentando decifrar onde tudo começou e quando tudo desandou. Em um tempo de choros e desilusões, restaram eu e meus devaneios sobre o futuro. Aliás, o que restou de mim? Sei que não restou nada de nós, até por quê nós nunca existimos. Em mim restaram mágoas e o medo de que tudo aconteça novamente, além do desejo de que isso tudo não aconteça mais, por que eu sei que toda a dor pertenceu só a mim. Sei que não há culpa em nenhum de nós, então não existem perdões, e por mais que tudo tenha se tornado esse círculo de dor, agradeço a ele por tudo."

Ele

"Ela pensei que tudo fosse recíproco, eu queria tanto que isso fosse real... A verdade é que o meu maior pesadelo era fazê-la sofrer, mas tudo foi inevitavelmente inevitável. Eu disse não e destruí os sonhos que ela passou meses construindo, agora sobram nela anos de mágoa. Ela é forte e volar ao mundo do mesmo jeito que entrou, vai ser feliz e perceber que tudo o que fiz foi porque tive medo, e ainda tenho. Não peço perdão por algo que não fiz, um pecado que não cometi, tudo que fiz foi pra proteger tanto a ela quanto a mim."

domingo, 6 de novembro de 2011

Quem bate?

És como uma brisa
no mês de janeiro,
és como luz
em um grande nevoeiro.

És meu poema de amor,
meu grito de dor,
meu sangue amargo,
e até mesmo um sorriso largo.

És desalinho em casamento,
és um beijo e um abraço,
és aperto mesmo quando há espaço,
meu amor no mês março.

És chuva sem trovão,
relâmpago e clarão.
Mas abra-me a porta,
pois quem bate é o coração.

sábado, 5 de novembro de 2011

Oh meu bem

Oh meu bem, não chora assim,
ri comigo,
vem comigo,
vem e sorri.

Oh meu bem, não faz assim,
faz direito,
faz com amor,
faz de dentro do peito.

Oh meu bem, não vai assim,
não vai embora,
fica aqui,
me abraça e vem.

Oh meu bem, pode chorar,
pode fazer,
pode ir.

Quem sou eu pra te segurar,
se nem minhas dores consigo evitar?
Tudo que eu sei é chorar, fazer e fugir...

sábado, 29 de outubro de 2011

Carta Primeira: Saudade

Querido Astolfo,

        Pode ser que seja apenas mais um capricho desta minha mimada carência, mas o fato é que desejo compartilhar de vossa presença. Não da mesma maneira que desejava antes, quando desejava vê-lo para falar sobre o amor, para dizer-lhe o que se passava em meu moribundo coração, que por ti havia sido partido uma centena e meia de dolorosas vezes, mas agora desejo apenas ver-lhe e aproveitar a tua apetitosa companhia. 
        Ás vezes tenho uma grande sensação de que passei um longo tempo juntando em mim desgosto e amargura, que me esqueci completamente o quão leve é a tua risada, como tua voz é doce e aveludada aos meus ouvidos, como o vosso toque me acalma e aquece, e acima de tudo, o quanto me alegra a companhia de alguém tão despreocupado e desnudo dos problemas cotidianos.
        Espero que com o passar do tempo, não tenhas perdido tais virtudes, e sim as cativado, que as tenha tratado como a mais bela e frágil das flores, e que ainda seja o mesmo pelo qual me apaixonei sem arrependimentos tanto tempo atrás.
       Hoje, sinto a tua falta como há muito eu não sentia, e é de uma maneira tão espontânea e despretensiosa, que eu mal sei o que fazer com esta ausência que sinto de ti, a não fazer o possível para lhe ver nos próximos dias, em algum lugar calmo, onde a tua presença seja forte e me traga a paz tu sempre me trouxestes, para que eu possa me sentir bem e lhe agradecer por tudo que és para mim. Peço que aguarde meu convite de peito aberto. 

                             Com amor e carinho, da eternamente tua,
                                                     Frida.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Clichê

O som da guitarra invade o quarto enquanto ela enlouquece com uma garrafa na mão, balançando os braços freneticamente e rodopiando como uma louca, ela não liga pra nada. Pousa a garrafa na cômoda e abre as janelas, deixando a luz da lua entrar, as partículas de poeira voam pelo quarto anoitecido. Pega a garrafa e beberica do líquido, ficando ainda mais alucinada. Agora é o som do baixo. O peso do baixo pesa também seu coração, ela não aguenta e cai sobre a cama, larga a garrafa no chão, toma cuidado para que seu precioso conteúdo não derrame no tapete. Fecha os olhos. As luzes piscam e as sombras caem rapidamente. É ele? Ela não faz idéia, nunca o viu. O coração bate acelerado. É ele, desta vez é uma afirmação. Quanto mais perto ele chega mais forte fica o inebriante perfume que alguém usava (ele?), é um charme direto, que chega a ser intragável. Ele traz um livro em uma das mãos e na outra uma caixinha acamurçada de azul ou roxo, tanto faz. Casamento? Um pedido de casamento? Será? Ele se aproxima ainda mais, agora estava a meio passo dela. Ela pode ver o quanto ele é alto, não é forte, apenas alto. Toca o peito dele para saber se ele é de verdade, e ele é. “Me responda uma coisa: que é que você faz aqui?” diz ela. Ele continua mudo e se aproxima até tocá-la. Ele abre a caixinha, lá dentro um anel, não um anel qualquer, não um anel de noivado, não um anel de casamento, um anel com uma pedra diferente de todas as que ela já viu, uma pedra que parece o raiar do dia e o pôr-do sol, uma pedra que tem gotas de amor, pitadas de paixão, um anel em formato de maçã. Ele põe no dedo dela. O livro que trás na outra mão, entrega a ela, tudo isso em silêncio. O livro? Sem nome, só uma capa vermelha com um D bem grande grafado em letras douradas. Ela se assusta um pouco, mas ele é tão envolvente que ela se entrega sem medo, o abraça, e ele retribui. O beija, o agarra, eles agora estão se amassando. A luz entra forte, sem pedir, tudo foi desintegrado. Abre os olhos. Já é manhã? É sim, o sol brilha sem parar. E o anel? E o livro? Ela olha as mãos e não encontra nada, era tudo sonho. Muito real esse sonho, ela acha. Levanta da cama, o som está desligado, quem foi? Talvez ela mesma... Pega a garrafa e leva até a cozinha, guarda na geladeira. O sol entra forte pela janela e faz a chave de casa se iluminar. Um sinal para sair de casa? Quem sabe. Ela vai ao banheiro e toma um banho demorado, se troca e decide caminhar pela vizinhança. Entra no mercado, que maçãs bonitas ela vê. Resolve comprar com os trocados que estão no bolso, pega umas 5, estão de um vermelho bonito, quase da cor do anel de maçã que viu no sonho. Põe na sacola e se vira. Esbarrou em alguém, foi tudo parar no chão, que porcaria! Alguém agacha pra ajudar a pegar as maçãs. Era ele! É ele? “Me desculpe, eu não te vi, olha, deixe que eu pago pelas maçãs” “Tudo bem” Vai pro caixa acompanhada do... Qual é o nome dele mesmo? Ele não disse. “Ei, qual seu nome mesmo?” “Danilo” A pulsação enlouquece de tão rápida, o sonho era um sinal. E os beijos e amassos? Ele paga as maçãs. “Me desculpe mesmo, se eu puder te compensar, olha, eu pago um jantar pra nós dois, se quiser” “Marcado, aqui está o meu telefone” Aí estavam os beijos e amassos “Obrigado, até mais, e mais uma vez, desculpa” “Tudo bem, não tem problema nenhum” Ele vai embora. Que noite, que sonho. E no final era tudo um sonho bobo. Bobo? Ela acha que foi tudo bem sério, fica impressionada e vai pra casa. Guarda as maçãs, que bom que não amassaram quando caíram. Quando ele liga? Será que vai ficar mudo como no sonho? Não interessa tanto, mas ele é mesmo charmoso, e usa sim o perfume inebriante. Sorri e se repreende. Não pode se apaixonar, mas agora é tarde demais pra se alarmar, ou alarmar alguém. Deita na cama e pensa em dormir, dorme. Tudo escuro de novo, só ouve “TRIIIIM TRIIIIM” Não é um, são vários telefones ao mesmo tempo. Qual é o certo? Qual é o dele? Atende o vermelho, lembra do livro do outro sonho. “Alô?” Alguma coisa é balbuciada do outro lado, não entende mas entra em êxtase, sabe que é alguma coisa positiva. “TRIIIIM, TRIIIIM” Agora é de verdade, acorda pra atender. “Alô?” “É o Danilo.” Sorri. Tudo se encaixa, é tudo destino. Ela acredita nisso, e eu? Eu acredito? Não sei, talvez, mas eu acho que não acredito em nada, acho que quem acredita é só ela. Mas ela sou eu, de uma forma ou de outra. Danilo a convida pra jantar enquanto eu tenho esses devaneios, ela aceita, claro. O jantar é amanhã, vai ser comida italiana, macarrão ou lasanha, ainda não se sabe. Melhor não usar branco, sempre se suja com molho á bolonhesa e mancha a roupa. Amanhã ela pensa nisso, não tem pressa nenhuma, nem vontade de criar expectativas, ela acha que dá azar, que a gente sempre se decepciona, por que nunca é exatamente como queremos, então nos decepcionamos mesmo quando é melhor do que o que esperamos. Amanhã ela tem um jantar com Danilo, e sonhou com isso antes do convite. Sorte? Destino? Não sei, você sabe? Mais um mistério da humanidade, quem sabe alguém resolve algum dia.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A ligação

O telefone tocou,
me enrolei no fio.
O fio do desejo,
desejo de ouvir tua voz.

Você disse Olá
e tudo soou como melodia.
Deixou meu ouvido mal-acostumado
e agora eu quero sempre mais.

Quando disseste Adeus,
relutei em desligar.
Demorei a pôr o fone no gancho,
demorei a me despedir.

Ainda enrolada no fio,
me pus de pé, me fiz de forte.
Mas o fio ainda estava lá,
e a tua lembrança me corroía.

Um dia e um adeus

Quando o vi vestindo uma jaqueta de couro e sorrindo charmosamente para um bando de garotas, pensei que fosse um imbecil, que se achava “o último biscoito do pacote”, mas de alguma forma ele me era deveras atraente. O cabelo, eu sabia que tinha sido propositalmente desarrumado, e que aquele estilo de quem pegou a primeira roupa do armário era uma falseta, apenas mais um chamariz, mas o fato é que dava certo. Enquanto conversava com um amigo, o vi puxar um violão e começar a dedilhá-lo para as garotinhas que suspiravam apaixonadas. “Que estúpido, deve ser tão fútil e raso quanto elas...” pensei comigo mesma. De repente, sem querer, parei de prestar atenção à conversa e me sentei junto das garotas. Ele sorria de forma incomum e sedutora, para cada uma delas, exceto pra mim, e isso de alguma forma muito me incomodava. Eu sabia que era um patinho feio, principalmente se comparada ás outras garotas que ali estavam, todas com seu charme, cabelos sedosos, rosto maquiado, roupas provocantes e caras, enquanto eu, pobrezinha, tinha os olhos cobertos por enormes óculos, roupas comuns e um corte que mal se ajeitava ao meu cabelo rebelde. Então percebi, que ao fazer tais comparações, de alguma forma, estava sentindo uma espécie de ciúmes (eu e minha mania de sentir ciúmes do que não me pertence) de tudo o que se passava no momento. Ele começou a tocar uma de minha canções preferidas, nada conhecida do público que ali se estabeleceu. As garotas ali sentadas pararam de prestar atenção ao que ele cantava, nada contentes com a música. Eu adorei e pensei com meus botões (de fato, minha blusa tinha botões) que ele não deveria ser tão fútil quanto eu achava. Um barulho distraiu todos que lá estavam, alguém tinha chegado. As garotinhas aproveitaram este momento de distração para se levantarem, confirmando minha tese de que continuaram ali apenas por educação. Aparentemente foram cumprimentar um recém-chegado. Eu continuei aonde estava. O estranho de jaqueta de couro continuou tocando, tocou mais duas canções e colocou o violão de lado.

- Espero que tenha gostado. - disse o estranho.
- Gostei, na verdade, você tocou uma das minhas canções preferidas. - afirmei. Queria manter uma conversa estável com ele, não sei por quê.
- Qual?
- Run. Eu achava que tão poucos conheciam essa canção, aliás, você não parece muito com quem toca esse tipo de música.
- É uma música da qual simplesmente gosto, a melancolia que ela passa para quem a ouve me atrai, e eu fiquei contente em aprender a tocá-la, apesar do meu inglês não ser o melhor possível e minha voz nada comparável com a original.

      Sorri abobalhadamente para ele, e de repente estávamos em uma empolgante conversa sobre tudo: música, cinema, televisão, noticiários, astronomia, literatura, sonhos para o futuro. Descobri que tínhamos muito em comum, e que eu o tinha julgado verdadeiramente mal. Nos levantamos e fomos nos sentar em alguns banquinhos, estes meio afastados do resto das pessoas. Conversávamos tão intimamente, tão gostosamente, que mal vi o tempo passar. Ele tocou a minha mão com delicadeza, e eu vi pelo seu sorriso e pelos seus gestos, que ele tinha algum interesse em mim. Começamos então um jogo de flerte, ele do seu lado, eu do meu, tentando ser uma charmosa oponente. Eis que nos aproximamos demais, eu podendo sentir sua respiração em meu rosto. Nos beijamos. Nos beijamos como se tudo dependesse daquele beijo, nossas línguas brigando, eu perdendo o fôlego, ele também. Paramos o beijo, olhamos um paro o outro e desatamos a rir. Ele me puxou e me deu um abraçou, minha cabeça ficando apoiada em seu peito e ele passando a mão carinhosamente pelo meu cabelo.

- Sabe, eu a notei desde o momento em que você chegou. - disse ele, meio melancólico.
- Eu também o notei, de certa forma.
- Devo ser sincero, não sou desta cidade, estou aqui a passeio e vou embora amanhã. Gostaria de ficar e conhece-la melhor, mas isso não me é possível. Desculpe. - nesse momento percebi o motivo de sua melancolia.
- Oh, eu nem sei o que lhe dizer...
- Diga adeus e me dê mais um beijo. Já se foi o Sol e a Lua há muito clareou o céu, eu tenho que ir embora.
- Antes de lhe dizer adeus, quero perguntar algo que me esqueci completamente, algo que nossas conversas não permitiram. Diga-me, qual o seu nome?
- Meu nome é Danilo.

      E antes que ele pudesse perguntar o meu, o beijei calorosamente. De alguma forma estranha, eu não queria dizer como me chamava, achando que isso fosse manter uma espécie de magia sobre tudo o que nos tinha acontecido naquele dia. Pouco depois nos despedimos e ele se foi. Eu soube naquele momento que provavelmente não o voltaria a encontrar, mas não me importei. É bem verdade que ele era um rapaz muito interessante e charmoso, e que seria muito bom poder conhecê-lo melhor, encontrá-lo mais vezes. Mas isso não me era possível, e eu nada podia fazer para mudar isso. Ao menos tinha realizado um de meus sonho: ao contrário das outras garotas, que sonhavam com uma “amor de verão”, eu sempre desejei um “affair de inverno”. E agora tinha conseguido, nesta breve passagem de Danilo (é satisfatório poder escrever ou dizer esse nome para mim) pelo meu acalentado coração. Quando eu lhe disse adeus, disse sem remorso. Adeus, apenas isso e nada. Foi um dia e um adeus para mim.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

As minhas estações

    No verão, deixei a areia da praia escorrer pelos dedos, enquanto teus olhos brilhavam ao sol. Tuas mãos enlaçavam minha cintura desnuda, enquanto o gosto salgado do mar inundava nossos beijos. Desejávamos tão pouco... Almejávamos apenas estar vivos e juntos até o fim do dia, nos amar profundamente, conhecer o próximo mais do que a si mesmo.

    Então chegou o outono, e enquanto as folhas caiam e o tempo esfriava, o nosso amor aquecia. Nossos planos começaram a transcender os dias, os meses, os anos. Teus abraços e tuas carícias me faziam sorrir cada vez mais, e a pele, agora coberta por leves camadas de tecido, rapidamente se despia para que eu pudesse te mostrar todo o meu amor.

    Junto com o inverno, nosso amor começou a esfriar, tuas palavras, antes quentes e cheias de sentimentos, agora eram frias. As brigas eram constantes, e eu já temia a hora de dizeres adeus. Acho que no fundo, ambos temíamos essa hora, e por isso fomos nos afastando um do outro ainda mais. No fim da estação, disseste adeus, não apenas por ti, mas por nós dois.

    Ao contrário das flores que desabrochavam e com o tempo que ficava ameno devido á chegada da primavera, meu coração secava e minha alma gelava. Meus passeios, antes gloriosos e cheios de paixão, se tornaram frios e vazios, e eu, relutante, insistia em não deixar as lágrimas cair. Eis que conheci alguém, caloroso e disposto a me consolar. Ia começar um novo verão...

A pena e o tinteiro

Como em um lindo livro,
deixe que a alma toque o centro
dessa confusão.

Então fugiremos em versos,
procurando o inverso,
buscando atenção.

Tu tocas minha alma.
Toque meu ser,
enquanto toco aquela canção.

Leia aquele poema,
me faça ser um enigma
enquanto desvendo teus mistérios.

Me complete, poeticamente,
seja o meu parceiro,
a pena do meu tinteiro.


quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Cante, me encante, me levante.

Tu me cativas e tua sabedoria me é extremamente atraente. E isso tudo me deixa imensamente constrangida, pois é completamente errado. Eras pra ser apenas um exemplo e nada mais, mas vejo em ti, de alguma forma, um companheiro, um romance tórrido. Me sinto Lolita, e ás vezes penso que sofro do complexo de Édipo, já que és tão semelhante ao meu progenitor, mas fica tudo no ar, de maneira estranha. Ás vezes perco meu discernimento, e tudo se deve á tua presença. Todos sabem do que sinto por ti, até tu, e não fazes nada, pois sabes que é errado, e além do mais não tens interesse algum em mim. Mas o meu interesse por ti, é algo diferente de tudo que já senti, pois não tenho esperança alguma. Talvez isso tudo seja apenas admiração, e eu esteja confundindo com mil e uma coisas, mas me sinto atraída por ti, e não há nada que eu possa fazer. Tuas rugas que tanta marcam os teus olhos amendoados, teus cabelos levemente ondulados, teu corpo parcialmente longilíneo, teus ralos pêlos sobre o peito, tuas enormes mãos, tua voz a cantar o romance melódico de La Belle De Jour, tua inspiradora inteligência, tua curiosidade, o modo como és literal e sem papas na língua, tudo isso me deixa encantada. Tu me deixas encantada. E realmente me cativas, das forma como pouquíssimos me cativaram (ou nenhum).

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Quem poderá me salvar.

O som da chuva batendo na janela era música para os meus ouvidos, a imagem das gotas escorrendo pela linda janela era arrebatadora. A velha máquina de escrever fazia tac tac tac e eu continua escrevendo sem parar, escrevia como se minha vida dependesse disso, e de fato, dependia. Era o único meio de salvar a casa que eu tanto amava, a casa na qual tinha sido criado, e antes de mim os meus pais, e antes dos meus pais, os avós. Eu era o único que restava da enorme e grande família na qual eu havia sido criado, ou pelo menos era o único que me importava com aquele lugar, por que para os outros era apenas uma casa velha e para mim eram lembranças que nunca iam se apagar. Quantas vezes eu tinha quebrado o vidro da janela que agora contemplava ao jogar bola com meus amigos? Quantas vezes tropecei nos degraus daquela escada de madeira? Quantas vezes ouvi o ranger do portão de ferro? E eram essas pequenas coisas que definiam o amor que eu sentia por aquele lar. Tentei me concentrar novamente, e então percebi que a chuva tinha parado, e um arco-íris se erguia lá fora. Me levantei e abri a janela, já esperando o cheiro inebriante de grama molhada. Quando meu olfato entrou em contato com a mistura de grama e chuva, eu praticamente fui á loucura, e ficou ainda mais claro que eu deveria voltar ao trabalho. Pensei em como seria perder aqueles momentos, pensei que meus filhos jamais sentiriam todos os prazeres que eu senti em ser criança, e até mesmo em ser adulto naquela casa. Quando senti ia chorar, me sentei no velho sofá, e isso me trouxe ainda mais lembranças. Lembrei de quando pulei no sofá e quebrei o braço, mamãe desesperada me levando ao hospital, enquanto meu pai ralhava comigo. Não aguentei e tive que chorar. Pouco depois, quando ainda me encontrava sentado no sofá, limpando as lágrimas que tinha caído, ouvi o som da campanha e resolvi atender. Quando saí, encontrei um senhor de terno, que logo pensei ser problema.
- Pois não, senhor?
- Gostaria de falar com o senhor Machado. Antônio Machado Neto.
- Eu mesmo.
- O seu tio Arlindo morreu, e deixou uma boa quantia de herança para o senhor.
Entrei em choque, estava completamente fragilizado, pensando que ia perder o meu lar. Agora tinha perdido tio Arlindo, o único com quem ainda tinha contato. O dinheiro vinha a calhar, é claro, mas pouco me importava. Na verdade fiquei intrigado, pois tio Arlindo era um homem simples, morava em uma casinha pequena, vivia sem luxos e tinha um emprego comum. Percebi que o senhor de terno parecia apressado e entediado, e que tinha ficado ali, parado e calado, por um bom tempo.
- O senhor faria o favor de entrar?
- Não tenho tempo, mas aqui estão os papéis, o enterro é amanhã. Até mais. Caso tenha alguma dúvida, o meu cartão está na pasta, junto com os papéis.
Eu tinha milhões de dúvidas, e não via a hora de escrever sobre elas. Entrei em casa e comecei a escrever.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Lembrete

Me lembro de quando esquecia
Quando lembrar não fazia diferença
As flores contavam histórias
E nós riamos ao acaso

Esquecia de me preocupar
Me preocupava em sorrir
A primavera era como o outono
E os sorrisos brotavam

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Old Soul

"Uma vontade de algo que não sei o que é, não sei aonde está, nem sei se algum dia vou encontrar. Um vazio imensurável que não posso explicar. Não, não sei relatar o que se passa, só sei que estou me cansando, e a cada dia fico ainda mais cansado. Poderia simplesmente reclamar da futilidade do mundo, da falta de graciosidade, das flagelas universais, das dores e dúvidas, mas ando cansado. Acho que envelheci ao invés de amadurecer. Quando se amadurece, são formadas opiniões coesas, informativas e de certa forma abertas, e eu não consegui isso. Antes me apetecia sorrir, ser feliz, hoje já nem tanto. O novo não me comove e ás vezes nem sequer me surpreende, enquanto o antigo muito mais me fascina e prende. Então digo que envelheci ao invés de amadurecer, por que ao invés de encontrar respostas e até mesmo me satisfazer ao achá-las, apenas parei e encontrei novas dúvidas, com as quais não posso, não quero e até mesmo não devo lidar. Além do mais, é como se eu tivesse nascido e me criado muito tempo atrás, como se eu tivesse vivido em tempo que não é o meu, e não posso evitar esses sentimentos, pois sinto, bem no meu íntimo, que a parte mais profunda do meu ser é de fato muito velha. Não acredito em reencarnação, mas esse talvez seja o caso da minha alma, que parece já se encontrar em estado caquético, idosa, e eu não posso fazer nada contra. Talvez eu rejuvenesça com o tempo ou talvez fique apenas mais velho, talvez amadurecer não seja o que a vida tem guardado para mim."

domingo, 4 de setembro de 2011

That eyes.

"Eu, de repente, olhei no fundo dos seus olhos, sem qualquer desejo, sem almejar nada. Acabei conhecendo tudo o que ele tentava esconder, descobri os seus segredos mais obscuros, enxerguei o profundo da sua alma. A dor estava ali, a decepção, a mágoa. Pude ver o seu coração através da janela que me foi aberta. Estava partido, despedaçado, e eu, não sei porquê, senti empatia, senti um desejo de consertar tudo aquilo, uma atração inevitável pela dor que estava ali, na minha frente. Talvez por que me reconheci nele e naquele sofrimento, naqueles sentimentos guardados, naquela dor. E talvez por isso eu quisesse reparar, para que ele não ficasse como eu. Não, eu não sabia porquê eu estava olhando aquilo. Podia ser o efeito da vodka barata que eu tinha bebido, ou apenas uma tramoia do destino. E aqueles olhos, de um castanho tão escuro, tão profundo, estavam guardando não só segredos, também guardavam uma alma. Eu dei chance a tudo que estava acontecendo, e quando abaixei meus olhos, percebi o quanto estávamos próximos, eu quase senti sua respiração. Seus lábios me convidavam a entrar naquela imensidão, perder o medo. Os lábios entreabertos, mostrando os dentes, quase o esboço de um sorriso, o deixando extremamente encantador. Ele também não estava bem, nós não estávamos bem. E não só pela bebida, mas por vários motivos, pela carência, a depressão, a tristeza. Pra mim tudo aquilo era um afrodisíaco, junto com as estrelas, o barulho das conversas afastadas. Então não resisti, não lutei, apenas me entreguei ao momento que estava vivendo. Nossos lábios se encontraram, e eu tinha uma sede quem mal podia conter, eu não entendia o porquê. O beijei vorazmente, o abracei, o tomei como meu por alguns minutos. Mas ele não era, não é, e provavelmente nunca será. Agradeço por isso, por que não estou preparada para novas decepções, e ele... Bom, ele tenta viver, seguir em frente, e eu não sou a melhor pessoa para ajudá-lo com isso, por que não sei nem me ajudar. O máximo que posso conseguir, ainda mais depois de ler seus olhos profundos, é isso: alguns minutos fazendo com que ele fosse meu. Isso, no entanto, é pouco. Eu preciso de muito, pra tapar as mágoas, as dores, as decepções. E o muito dele se partiu, por enquanto. Não cabe a mim consertar, nem ao menos tentar. Sei também que não vou resistir ao seu sorriso, ao seu charme, á sua dor, mas não posso tentar mais do que isso. Não quero tentar mais do que isso, até por quê, eu não conseguiria. Na verdade, eu nunca consigo."

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Cartas abertas, envelopes rasgados, sorrisos roubados, lágrimas derramadas, beijos dados, amores improváveis, partidas inevitáveis, camas desarrumadas, roupas amassadas, cabelos puxados, mãos dadas.

I could be wrong, but I don't care.

Eu errei, e algumas vezes agradeço por isso. Por que foram esses erros que me ensinaram muito do pouco que sei, me fizeram o que sou. Sem os erros que cometi, eu não estaria preparada para os futuros erros, eu sofreria muito mais. Não estou dizendo que não vou sofrer quando errar, estou apenas dizendo que estarei mais preparada. Errar me fez perder alguns medos, me fez perceber que há coisas muito pequenas ás quais damos demasiado valor, e que só sofremos por isso. Passei por várias situações, e estou viva. Ainda mais firme e ainda mais forte, ainda mais crédula de que uma hora, nem que seja por um segundo, tudo vai dar certo. A vida é como um jogo, um dia se é caça, no outro caçador, é tudo muito aleatório, quase na base da sorte. Eu reclamo sim, tenho todo o direito, mas no fundo, agradeço pelos erros. São os erros e o que aprendemos com eles que moldam o nosso caráter, e não apenas acertos e alegrias. Sorrir nem sempre é o melhor remédio. Eu erro, e espero continuar errando, por muito tempo, e por várias e inconstantes vezes.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Só por hoje.

Me senti livre, feliz, era tudo o que precisava. Eu precisava viver. Abandonei todos os conceitos errados, pré-conceitos. Abandonei o que não precisava. Não preciso mais chorar, me ferir, me magoar. Não preciso de nada disso além da conta. Foi isso que aprendi com ele, aprendi que a vida vale muito, e que ele é apenas um entre milhões, que ele é comum e normal, e eu não, eu sou diferente, eu tenho minha própria identidade. Posso ter tido a vontade de dar fim a isso que chamo de vida, mas segui em frente, por que ele não vale uma lágrima, um choro, e eu sou mais do que tudo que ele pode ser. Só por hoje não vou mais me destruir como já fiz tantas vezes. Hoje eu vou viver, ser feliz, sem medo, sem riscos, vou ser feliz e só. Eu sou o que preciso ser e sei disso. Isso me basta, não preciso que ninguém saiba disso, apenas eu. O que me importa é ser feliz, me libertar, esquecer o que já me fez sofrer, e eu estou conseguindo. Só por hoje eu sou melhor do que já fui tantas vezes, sou corajosa, sou alegre, extrovertida. Sou eu mesma, só que feliz, sem medo de viver, tentar, sem medo de errar. Já errei tanto que um a mais ou a menos chega a nem fazer diferença. O que me preocupa agora é o presente, e não mais o futuro ou o passado, penso só no hoje. Só por hoje eu sei quem sou e não vou me machucar como uma idiota, por que isso eu já não sou mais. Aprendi sofrendo e agora vou aprender sorrindo, vivendo.

I'm a terrible person.


Não sou confiável, nunca fui, e ela sempre soube. Todos os beijos e abraços, eram tudo uma trama de enganações, e ela sabia. Eu poderia dizer que a seduzi, e de fato o fiz, mas ela sempre soube quem eu era e o que eu estava fazendo. Ela estava tão solitária que aceitou tudo de bom grado, mesmo sabendo que ia sangrar no fim. Quando eu lhe contava sobre o meu amor, e dizia que ela era minha vida, quando eu falava todas essas mentiras ela ria e me abraçava. Ela sabia que por que eu estava fazendo aquilo, e mesmo assim ela não me impediu. Eu roubei sua inocência, parti seu coração, destruí sua vida, e tudo que ela fez foi sorrir. Por que ela sempre soube o que eu queria, como eu fazia, ela me conhecia melhor do que a mim mesmo. Mas depois de tudo, o fato dela sempre saber não me torna melhor, ainda sou o mesmo trapaceiro, continuo tramando, esse é meu meio de viver. E agora eu tenho medo, medo que façam a mim o mesmo que fiz aos outros, mesmo que me destruam, por que eu não sou como ela, eu não vou saber. Ela sempre sabe, de tudo, de todos, e não se importa com o que acontece. Não se importou com o que eu fiz, e nem eu me importo. Por que eu sou uma pessoa terrível.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

The body is dead, the soul is alive.

A bala cortava o tempo, e cortava a vida. O tiro foi proferido pelo desconhecido, veio do escuro, do nada. Levou a mão ao peito que tinha sido atingido, sentiu o sangue escorrer e a pólvora passando entrando no sangue. O gosto da morte invadiu a boca, as palavras não saiam, a cabeça rodava e tudo começou a escurecer. Lentamente o corpo caiu no chão, inerte. A vida se foi, o serviço estava feito. O cano da pistola ainda quente, o assassino tirou as mãos do gatilho e sorriu. Nunca saberiam que era ele, cuidara de tudo, não ia deixar nenhuma pista. Abriu o corpo e o desossou, com mãos precisas, quase um médico. Tudo se tornava casa vez mais sinistro, e a noite queria se tornar dia. Pegou a pele e a banhou em gasolina, acendeu um fósforo e o atirou na direção da carne morta que estava jogada no chão. Enquanto o resto do corpo virava um monte cinzas, pegou os ossos e os jogou no buraco que tinha aberto no dia anterior. Tapou o buraco e se foi. Mal imagina que a alma que pensava ter matado estava tremendamente viva e pronta para a vingança. Um pobre diabo esse que mata a carne á espera que a alma fuja, mas não foge. Sempre volta. E dessa vez não ia perdoar.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Música Urbana.

Tinha bebido além da conta e o mundo começou a girar. O estômago estava revirado e um dos pés tinha um corte, que ela não sabia de onde vinha. As palavras saiam interminavelmente da boca, e a cada vez que o cérebro pedia para parar, mais rápido ela falava. A mente transbordava idéias, os gestos eram lentos e imprecisos, ela não sabia mais como ia sair daquilo, sair dali. Caiu no chão, desabou, não entendia nada do que estava acontecendo, só sabia que tinha que andar, sair dali, se aconchegar. Não andou, não saiu, não se aconchegou. Entrou no ônibus e sentou, a cabeça ainda rodando. O ônibus fedia e da janela podia ver as ruas pútridas, cheias de mendigos e drogados, todos dividindo o mesmo asfalto em busca de uma cama que nunca existiu, jogados no chão, ao léu. Desceu do ônibus e subiu o morro cambaleando. Chegou em casa e se jogou na água, esperando que tudo parasse de rodar. O gosto do álcool estava na boca, escovou os dentes. Saiu do banho e comeu, deitou, encontrou aconchego, dormiu. Dormiu como se não houvesse amanhã, como se o mundo fosse parar. E tinha parado, quando o álcool ainda a afetava e chão parecia cada vez mais perto. O pé cortado e as memórias eram as lembranças. O pé doía, as memórias estavam embaralhadas. Tinha alguns arrependimentos, mas até quando? Ainda era cedo e ela tinha que ir viver.

sábado, 30 de julho de 2011

Escolherá.

Não adianta nada chorar, entenda isso. Seu choro não vai mudar nada do que aconteceu, e nem vai alterar o que tem que acontecer. O destino não se convence com as suas lágrimas, ele segue seu curso, independente do que você sente ou vá sentir. Os planos do destino são muito maiores do que qualquer dor que você possa sentir, maiores do que qualquer lágrima que você possa derramar, maiores do que qualquer amor que você possa perder. Você não escolhe o seu destino, e, por mais que queira, dificilmente vai conseguir lutar contra ele. Não que seja impossível mudá-lo, talvez não seja nem difícil, mas no fundo, mesmo sofrendo, o destino que temos, é o que realmente queremos. Você pode não se sentir preparado agora, e tem razão, mas um dia você vai estar preparado e vai fazer tudo que é preciso para cumprir seu destino. E tudo isso, no fim, são apenas escolhas. Escolhas inevitáveis, que chamamos tolamente de destino. São inevitáveis, e não vão mudar, independente do que aconteça. O destino são nada mais do que nossas escolhas.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Velhos hábitos.

Roeu as unhas até o sabugo, arrancou os cabelos, chorou até secar, bebeu até se embriagar. E não era depressão, era a vida. Ninguém entendia, todos julgavam. Deu mais uma tragada no cigarro, a maquiagem já borrada, o coração já partido. Se apaixonava sem pensar, bebia para esquecer. Quando pensava demais estava louca, quando agia por impulso era leviana. Não entendia como o mundo era complicado e traiçoeiro, confiava em quem deveria desconfiar, queria morrer quando a solução era viver. Ela não era nada, e não perdia os velhos hábitos, todos de mal gosto. Eram só velhos hábitos que ela não queria perder. Bebeu mais um gole, tragou mais um pouco, chorou de mais. Velhos hábitos nunca mudam. E ela também não mudava.

Last night's of golden rest.

Últimas noites de dourado descanso. Noites em claro, dias dormindo, abraços dados, beijos roubados, copos virados. Sem arrependimentos, medos, ou algo do tipo. Parei de pensar e passei a viver. Últimas noites desse dourado descanso. Só me arrependo do que não fiz, mas fiz tudo o que pude. Não era um dia de verão, não haviam as flores da primavera ou as folhas do outono, só os ventos do inverno. Ventos esses que por ora apenas me aquecem, e as noites eram mais quentes que os dias, os copos destilados matavam mais a sede que a pura água, e o gelo foi quebrado. Dias em que viver parecia fácil, e sorrisos eram dados a todo momento. Agora só me resta aproveitar os últimos, por que logo logo as preocupações estarão de volta e o mundo começará a girar com a todo o vapor. Últimas noites de dourado descanso, dourado prazer.

Dúvidas sem respostas, conversas perdidas, um copo vazio

- Só pra você não dizer que eu fui ou sou rude, só pra você não dizer que eu esqueci tudo. Eu me importei enquanto podia, mas segui em frente, como você fez. Só por que não fico remoendo o passado não quer dizer que não me importo, e você devia saber, afinal foi você quem escolheu isso.

Tomou mais um gole da cachaça de má qualidade que o bar tinha a oferecer.

- Eu não pedi isso, eu só queria te ver.
- Mentira, você só queria me dizer o quanto eu sou horrível por estar sozinha, mas a culpa é sua e nada mais.

Virou o copo, o copo das mágoas.

- Eu vou embora, você não está bem.
- Não, não estou, mas estou melhor assim do que com você, querido. Acredite ou não eu ainda guardo todas elas.
- Todas o quê?
- Todas as mágoas que você me deu de presente.

Ele se levantou e foi o embora. O copo esvaziou, e ficou ali, vazio. Ela pagou a conta e pegou um táxi. Ela não se arrependeu mais tarde. Ele sim. Quem era quem, quem era o quê? O copo sabia, mas o copo estava vazio, e ninguém podia encher. Dúvidas sem respostas, copos vazios, conversas perdidas.

É assim o meu viver.

"Me dilacero por dentro procurando uma resposta, para um pergunta que nem ao menos sei qual é. Vejo tudo desabar a minha volta, e não faço nada. Apenas desabo também. Quero acreditar que tudo tem solução, quero acreditar que não estou sozinha, mas parece que estou me enganando. Lembro agora, que "mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira" e meu peito dói. Por quê? Por quê faço isso? Sei bem que quando faço a dor vem com toda sua força, mas continuo fazendo. Me enganar parece tão mais fácil do que admitir meus erros, além do mais, vem se tornando um vício. A dor, mesmo doendo (obviamente), me entorpece por alguns minutos e eu esqueço tudo. Esqueço de viver. E viver é a parte mais difícil de todas. Por que dói mais, e não é uma dor entorpecente, é uma dor viva, e sou incapazes de lutar contra ela. Para viver corremos riscos, e eu não quero riscos. Cansei de riscos. Cansei de tudo. Nada mais me satisfaz, e a pergunta, que eu não sei qual é, continua sem resposta." 


Escrito a alguns meses também, mas é uma boa pedida pra hoje.

By The Way.

A propósito, como posso esquecer o inesquecível, como posso morrer ainda vivendo, como posso mentir se é tudo verdade? Esperando algo de que não preciso, odiando algo que devia amar, escrevendo o que deveria apagar, a propósito, eu tento ser melhor. Me fixando em coisas que não existem, tentando fazer com que elas existam. A propósito, eu tentei te dizer que era assim, e você nunca acreditou. Nunca acreditou em meus piores instintos, mas eles estavam lá. Tentei te afastar e você continuou, e eu posso ter feito você sofrer. A propósito, se te fiz mal, não foi por querer, aliás, nada é por querer, e tudo por necessidade, mesmo que elas sejam as piores. Eu disse que não era das melhores, mas penso que menti ao lhe contar a verdade. A propósito, não sei se tudo que disse foi verdade, mas tentei não mentir, e nem medir, tentei não mudar e nem ao menos tentei julgar. Mas acontece. E foi nosso fim. A propósito, não chorei por você, nem por mim, nem por nós. Chorei pelo mundo. E foi pouco. Por tudo que foi bom se sobrepôs ao fim. A propósito, não me arrependo de nada. Ou será que me arrependo de tudo? A propósito, já não sei.


By The Way - Red Hot Chili Peppers Por que foi o que me inspirou, quando escrevi esse texto, meses atrás.

Dezesseis

      Aos dezesseis já tinha inúmeras manias, imagine aos trinta? Trocava um amor por um copo de álcool, os beijos eram amargos e a vontade de viver se perdia casa vez mais. Lhe faltava coragem e sobrava rancor, sofria sem saber o por quê, chorava quando podia, não quando queria. Sentia-se nula, sem futuro, e o que mais temia era estar certa. No começo tinha tantos planos, e agora eram nada mais que sonhos, e o tempo, quanto mais ela queria que passasse, mais demorava a passar. Os dias pareciam anos e as horas pareciam meses, e o seu único prazer era saber que um dia tudo aquilo ia acabar, e ela não ia mais existir. Comia compulsivamente e dormia esperando que o amanhã nunca chegasse. Não tinha auto-estima e só sabia exaltar os próprios defeitos, se esquecendo que também tinha qualidades. A cada erro esquecia tudo o que tinha feito certo, a cada choro esquecia todos os sorrisos, a cada decepção esquecia os sonhos. Aos dezesseis já não sorria como antes, mas queria mudar, recomeçar. Queria encontrar tudo o que tinha perdido no caminho, queria encontrar um caminho. Para isso tinha que perder o medo, esse que lhe corroía a alma e endurecia o coração. Era um medo crônico, doloroso, e ela não sabia se podia se curar, e então, a cada erro que cometia, esse medo só fazia crescer. Mas ela só tinha dezesseis e ninguém poderia lhe culpar pela insegurança ou lhe julgar pelos atos falhos. Tanta coisa pela frente, que uma hora ela ia entender, parar de pensar e simplesmente fazer, e essa hora era o que ela mais esperava. Enquanto essa hora não chegava, ela vivia assim, sem sentido, em um sofrer inesperado, manias complicadas, coração vazio. E ela só tinha dezesseis, e ninguém poderia lhe culpar por isso.

Dezesseis - Legião Urbana