Quando o vi
vestindo uma jaqueta de couro e sorrindo charmosamente para um bando de
garotas, pensei que fosse um imbecil, que se achava “o último biscoito do
pacote”, mas de alguma forma ele me era deveras atraente. O cabelo, eu sabia
que tinha sido propositalmente desarrumado, e que aquele estilo de quem pegou a
primeira roupa do armário era uma falseta, apenas mais um chamariz, mas o fato
é que dava certo. Enquanto conversava com um amigo, o vi puxar um violão e
começar a dedilhá-lo para as garotinhas que suspiravam apaixonadas. “Que
estúpido, deve ser tão fútil e raso quanto elas...” pensei comigo mesma. De
repente, sem querer, parei de prestar atenção à conversa e me sentei junto das
garotas. Ele sorria de forma incomum e sedutora, para cada uma delas, exceto
pra mim, e isso de alguma forma muito me incomodava. Eu sabia que era um
patinho feio, principalmente se comparada ás outras garotas que ali estavam,
todas com seu charme, cabelos sedosos, rosto maquiado, roupas provocantes e
caras, enquanto eu, pobrezinha, tinha os olhos cobertos por enormes óculos,
roupas comuns e um corte que mal se ajeitava ao meu cabelo rebelde. Então
percebi, que ao fazer tais comparações, de alguma forma, estava sentindo uma
espécie de ciúmes (eu e minha mania de sentir ciúmes do que não me pertence) de
tudo o que se passava no momento. Ele começou a tocar uma de minha canções
preferidas, nada conhecida do público que ali se estabeleceu. As garotas ali
sentadas pararam de prestar atenção ao que ele cantava, nada contentes com a
música. Eu adorei e pensei com meus botões (de fato, minha blusa tinha botões)
que ele não deveria ser tão fútil quanto eu achava. Um barulho distraiu todos
que lá estavam, alguém tinha chegado. As garotinhas aproveitaram este momento
de distração para se levantarem, confirmando minha tese de que continuaram ali
apenas por educação. Aparentemente foram cumprimentar um recém-chegado. Eu
continuei aonde estava. O estranho de jaqueta de couro continuou tocando, tocou
mais duas canções e colocou o violão de lado.
- Espero que tenha gostado. - disse o estranho.
- Gostei, na verdade, você tocou uma das minhas
canções preferidas. - afirmei. Queria manter uma conversa estável com ele, não
sei por quê.
- Qual?
- Run. Eu achava que tão poucos conheciam essa canção,
aliás, você não parece muito com quem toca esse
tipo de música.
- É uma música da qual simplesmente gosto, a
melancolia que ela passa para quem a ouve me atrai, e eu fiquei contente em
aprender a tocá-la, apesar do meu inglês não ser o melhor possível e minha voz
nada comparável com a original.
Sorri
abobalhadamente para ele, e de repente estávamos em uma empolgante conversa sobre tudo: música, cinema, televisão, noticiários, astronomia,
literatura, sonhos para o futuro. Descobri que tínhamos muito em comum, e que
eu o tinha julgado verdadeiramente mal. Nos levantamos e fomos nos sentar em
alguns banquinhos, estes meio afastados do resto das pessoas. Conversávamos tão
intimamente, tão gostosamente, que mal vi o tempo passar. Ele tocou a minha mão
com delicadeza, e eu vi pelo seu sorriso e pelos seus gestos, que ele tinha
algum interesse em mim. Começamos então um jogo de flerte, ele do seu lado, eu
do meu, tentando ser uma charmosa oponente. Eis que nos aproximamos demais, eu
podendo sentir sua respiração em meu rosto. Nos beijamos. Nos beijamos como se
tudo dependesse daquele beijo, nossas línguas brigando, eu perdendo o fôlego,
ele também. Paramos o beijo, olhamos um paro o outro e desatamos a rir. Ele me
puxou e me deu um abraçou, minha cabeça ficando apoiada em seu peito e ele
passando a mão carinhosamente pelo meu cabelo.
- Sabe, eu a notei desde o momento em que você chegou. - disse ele, meio
melancólico.
- Eu também o notei, de certa forma.
- Devo ser sincero, não sou desta cidade, estou aqui a
passeio e vou embora amanhã. Gostaria de ficar e conhece-la melhor, mas isso
não me é possível. Desculpe. - nesse momento percebi o motivo de sua melancolia.
- Oh, eu nem sei o que lhe dizer...
- Diga adeus e me dê mais um beijo. Já se foi o Sol e
a Lua há muito clareou o céu, eu tenho que ir embora.
- Antes de lhe dizer adeus, quero perguntar algo que
me esqueci completamente, algo que nossas conversas não permitiram. Diga-me,
qual o seu nome?
- Meu nome é Danilo.
E antes que ele
pudesse perguntar o meu, o beijei calorosamente. De alguma forma estranha, eu
não queria dizer como me chamava, achando que isso fosse manter uma espécie de
magia sobre tudo o que nos tinha acontecido naquele dia. Pouco depois nos
despedimos e ele se foi. Eu soube naquele momento que provavelmente não o
voltaria a encontrar, mas não me importei. É bem verdade que ele era um rapaz
muito interessante e charmoso, e que seria muito bom poder conhecê-lo melhor,
encontrá-lo mais vezes. Mas isso não me era possível, e eu nada podia fazer
para mudar isso. Ao menos tinha realizado um de meus sonho: ao contrário das
outras garotas, que sonhavam com uma “amor de verão”, eu sempre desejei um
“affair de inverno”. E agora tinha conseguido, nesta breve passagem de Danilo
(é satisfatório poder escrever ou dizer esse nome para mim) pelo meu acalentado
coração. Quando eu lhe disse adeus, disse sem remorso. Adeus, apenas isso e
nada. Foi um dia e um adeus para mim.