sexta-feira, 29 de julho de 2011

Dezesseis

      Aos dezesseis já tinha inúmeras manias, imagine aos trinta? Trocava um amor por um copo de álcool, os beijos eram amargos e a vontade de viver se perdia casa vez mais. Lhe faltava coragem e sobrava rancor, sofria sem saber o por quê, chorava quando podia, não quando queria. Sentia-se nula, sem futuro, e o que mais temia era estar certa. No começo tinha tantos planos, e agora eram nada mais que sonhos, e o tempo, quanto mais ela queria que passasse, mais demorava a passar. Os dias pareciam anos e as horas pareciam meses, e o seu único prazer era saber que um dia tudo aquilo ia acabar, e ela não ia mais existir. Comia compulsivamente e dormia esperando que o amanhã nunca chegasse. Não tinha auto-estima e só sabia exaltar os próprios defeitos, se esquecendo que também tinha qualidades. A cada erro esquecia tudo o que tinha feito certo, a cada choro esquecia todos os sorrisos, a cada decepção esquecia os sonhos. Aos dezesseis já não sorria como antes, mas queria mudar, recomeçar. Queria encontrar tudo o que tinha perdido no caminho, queria encontrar um caminho. Para isso tinha que perder o medo, esse que lhe corroía a alma e endurecia o coração. Era um medo crônico, doloroso, e ela não sabia se podia se curar, e então, a cada erro que cometia, esse medo só fazia crescer. Mas ela só tinha dezesseis e ninguém poderia lhe culpar pela insegurança ou lhe julgar pelos atos falhos. Tanta coisa pela frente, que uma hora ela ia entender, parar de pensar e simplesmente fazer, e essa hora era o que ela mais esperava. Enquanto essa hora não chegava, ela vivia assim, sem sentido, em um sofrer inesperado, manias complicadas, coração vazio. E ela só tinha dezesseis, e ninguém poderia lhe culpar por isso.

Dezesseis - Legião Urbana

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