quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Quem poderá me salvar.

O som da chuva batendo na janela era música para os meus ouvidos, a imagem das gotas escorrendo pela linda janela era arrebatadora. A velha máquina de escrever fazia tac tac tac e eu continua escrevendo sem parar, escrevia como se minha vida dependesse disso, e de fato, dependia. Era o único meio de salvar a casa que eu tanto amava, a casa na qual tinha sido criado, e antes de mim os meus pais, e antes dos meus pais, os avós. Eu era o único que restava da enorme e grande família na qual eu havia sido criado, ou pelo menos era o único que me importava com aquele lugar, por que para os outros era apenas uma casa velha e para mim eram lembranças que nunca iam se apagar. Quantas vezes eu tinha quebrado o vidro da janela que agora contemplava ao jogar bola com meus amigos? Quantas vezes tropecei nos degraus daquela escada de madeira? Quantas vezes ouvi o ranger do portão de ferro? E eram essas pequenas coisas que definiam o amor que eu sentia por aquele lar. Tentei me concentrar novamente, e então percebi que a chuva tinha parado, e um arco-íris se erguia lá fora. Me levantei e abri a janela, já esperando o cheiro inebriante de grama molhada. Quando meu olfato entrou em contato com a mistura de grama e chuva, eu praticamente fui á loucura, e ficou ainda mais claro que eu deveria voltar ao trabalho. Pensei em como seria perder aqueles momentos, pensei que meus filhos jamais sentiriam todos os prazeres que eu senti em ser criança, e até mesmo em ser adulto naquela casa. Quando senti ia chorar, me sentei no velho sofá, e isso me trouxe ainda mais lembranças. Lembrei de quando pulei no sofá e quebrei o braço, mamãe desesperada me levando ao hospital, enquanto meu pai ralhava comigo. Não aguentei e tive que chorar. Pouco depois, quando ainda me encontrava sentado no sofá, limpando as lágrimas que tinha caído, ouvi o som da campanha e resolvi atender. Quando saí, encontrei um senhor de terno, que logo pensei ser problema.
- Pois não, senhor?
- Gostaria de falar com o senhor Machado. Antônio Machado Neto.
- Eu mesmo.
- O seu tio Arlindo morreu, e deixou uma boa quantia de herança para o senhor.
Entrei em choque, estava completamente fragilizado, pensando que ia perder o meu lar. Agora tinha perdido tio Arlindo, o único com quem ainda tinha contato. O dinheiro vinha a calhar, é claro, mas pouco me importava. Na verdade fiquei intrigado, pois tio Arlindo era um homem simples, morava em uma casinha pequena, vivia sem luxos e tinha um emprego comum. Percebi que o senhor de terno parecia apressado e entediado, e que tinha ficado ali, parado e calado, por um bom tempo.
- O senhor faria o favor de entrar?
- Não tenho tempo, mas aqui estão os papéis, o enterro é amanhã. Até mais. Caso tenha alguma dúvida, o meu cartão está na pasta, junto com os papéis.
Eu tinha milhões de dúvidas, e não via a hora de escrever sobre elas. Entrei em casa e comecei a escrever.

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