quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O conto do Corvo ou coisa que valha

Todos os dias quando o sol se punha, o Corvo pousava calmamente na goiabeira seca do quintal e começa a berrar. Berrava, gritava, esperneava, e ninguém ouvia o Corvo, logo ele, que nunca havia feito mal a ninguém e apenas trazia notícias - sérias notícias -. Todos os dias pousava no galho mais alto e berrava o obituário, ninguém se dignava a abrir a janela ou a porta, a sair da casa prestar atenção aos recados do Corvo. Entristecido com tudo o que acontecia, o Corvo foi visitar alguns amigos que pousavam em uma praça, amigos muito viajados, que já haviam ido a todas as partes do mundo noticiar as mortes, alguns até noticiaram mortes importantes, como a de reis e rainhas, presidentes e faraós, tais corvos lhe disseram que era melhor partir para uma terra muito bonita, onde todos estariam atentos ás suas notícias, agradecendo as informações com generosos pedaços de pão e até mesmo longas conversas. Decidido, o Corvo se despediu emocionado da família em que estivera por anos e se pôs a voar. Voou, voou, viu brisas e tempestades, lagos e mares, até chegar á tal terrinha, onde corvos eram amados e respeitados como deveriam ser. Batendo asas, comemorou sua chegada ao tal esperado lugar pousando em uma bela árvore, de madeira avermelhada e tronco firme, nem tão alto que não pudessem ouvi-lo, nem tão baixa que não ficasse imponente. Berrou, berrou, berrou. Veio uma senhora vestindo luto, bem velha, as marcas da vida em todo o rosto, apoiou-se ao batente da janela e ouviu tudo o Corvo tinha a gritar. Quando o Corvo silenciou, a calma senhora retirou-se para dentro do sobrado azul desbotado em que vivia e voltou com um enorme pedaço de pão. Sorriu e começou a falar com o Corvo enquanto jogava pedacinhos de pão em sua direção. O Corvo ficou satisfeitíssimo com tanta hospitalidade e generosidade, pensou consigo mesmo que aquilo era seu maior sonho sendo realizado, pensou em como era bom alguém que quisesse ouvi-lo e contar-lhe da vida. Passaram se meses, e o Corvo, antes feliz da vida com a generosa senhora, começou a se deprimir. A senhora era sozinha e vivia triste em seu luto, quase não saia de casa, quase não recebia visitas, quase não se movimentava. O Corvo, mesmo sem querer, comparou tudo isso com o que acontecia em seu antigo lar, onde crianças corriam o dia todo, haviam festas e visitas, brigas e abraços, e de repente sentiu um vazio no peito, um sentimento dilacerante, um dor cortante, sentiu uma saudade devastadora de tudo que vivia antes, por que o sol que batia aqui não era o mesmo que batia lá, esta árvore não dava frutos e as flores quase sempre morriam de secas. Pensou por dias, meses, semanas, e no fim das contas decidiu voltar para a velha goiabeira, onde não lhe davam atenção mas ele se sentia feliz da mesma maneira. Em seu último dia naquela árvore, deu suas notícias calmamente e esperou a senhora dizer tudo o que dia a lhe dizer, quando ela entrou para buscar o pedaço de pão como de costume ele pousou no batente da janela e a esperou. Ela, tranquilamente, passou uma das velhas mãos sobra a cabeça do corvo, deu a ele o pedaço de pão e disse-lhe: "Eu sei que tu vais embora corvinho, tu vais como os outros se foram. Faço o que posso para dar-lhes companhia, mas nunca é o bastante... Vá e siga o teu caminho, vá, vá logo pois não gosto de despedidas." Seus olhos marejaram e duas lágrimas caíram. O Corvo bateu asas, e ao invés de ir embora como tinha planejado, ficou. Ficou por que aquela senhora tão triste e sozinha precisava mais dele do que ele precisava da família feliz e alegre onde vivia antes, e quando alguém precisa mais de nós do que nós precisamos de algo, alguém precisa ceder, e quem cedeu foi o Corvo. A senhora morreu pouco tempo depois, e então ele voltou para o seu antigo lar, voltou feliz por ter estado com aquela senhora até os seus últimos momentos. Algum tempo depois, quando as crianças já eram adultos, e os adultos já eram idosos, foi a vez do Corvo ir. Ele morreu no pousado no galho da goiabeira, depois de dar sua últimas notícias. E você? Já cedeu por alguém? Cederia por alguém? Você faria o que o Corvo fez?

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