quinta-feira, 27 de outubro de 2011
Clichê
O som da guitarra invade o quarto enquanto ela enlouquece com uma
garrafa na mão, balançando os braços freneticamente e rodopiando como uma
louca, ela não liga pra nada. Pousa a garrafa na cômoda e abre as janelas,
deixando a luz da lua entrar, as partículas de poeira voam pelo quarto
anoitecido. Pega a garrafa e beberica do líquido, ficando ainda mais alucinada.
Agora é o som do baixo. O peso do baixo pesa também seu coração, ela não aguenta
e cai sobre a cama, larga a garrafa no chão, toma cuidado para que seu precioso
conteúdo não derrame no tapete. Fecha os olhos. As luzes piscam e as sombras
caem rapidamente. É ele? Ela não faz idéia, nunca o viu. O coração bate
acelerado. É ele, desta vez é uma afirmação. Quanto mais perto ele chega mais
forte fica o inebriante perfume que alguém usava (ele?), é um charme direto,
que chega a ser intragável. Ele traz um livro em uma das mãos e na outra uma
caixinha acamurçada de azul ou roxo, tanto faz. Casamento? Um pedido de
casamento? Será? Ele se aproxima ainda mais, agora estava a meio passo dela.
Ela pode ver o quanto ele é alto, não é forte, apenas alto. Toca o peito dele
para saber se ele é de verdade, e ele é. “Me responda uma coisa: que é que você
faz aqui?” diz ela. Ele continua mudo e se aproxima até tocá-la. Ele abre a
caixinha, lá dentro um anel, não um anel qualquer, não um anel de noivado, não
um anel de casamento, um anel com uma pedra diferente de todas as que ela já
viu, uma pedra que parece o raiar do dia e o pôr-do sol, uma pedra que tem
gotas de amor, pitadas de paixão, um anel em formato de maçã. Ele põe no dedo
dela. O livro que trás na outra mão, entrega a ela, tudo isso em silêncio. O
livro? Sem nome, só uma capa vermelha com um D bem grande grafado em letras
douradas. Ela se assusta um pouco, mas ele é tão envolvente que ela se entrega
sem medo, o abraça, e ele retribui. O beija, o agarra, eles agora estão se
amassando. A luz entra forte, sem pedir, tudo foi desintegrado. Abre os olhos.
Já é manhã? É sim, o sol brilha sem parar. E o anel? E o livro? Ela olha as
mãos e não encontra nada, era tudo sonho. Muito real esse sonho, ela acha.
Levanta da cama, o som está desligado, quem foi? Talvez ela mesma... Pega a
garrafa e leva até a cozinha, guarda na geladeira. O sol entra forte pela
janela e faz a chave de casa se iluminar. Um sinal para sair de casa? Quem
sabe. Ela vai ao banheiro e toma um banho demorado, se troca e decide caminhar
pela vizinhança. Entra no mercado, que maçãs bonitas ela vê. Resolve comprar
com os trocados que estão no bolso, pega umas 5, estão de um vermelho bonito,
quase da cor do anel de maçã que viu no sonho. Põe na sacola e se vira.
Esbarrou em alguém, foi tudo parar no chão, que porcaria! Alguém agacha pra
ajudar a pegar as maçãs. Era ele! É ele? “Me desculpe, eu não te vi, olha,
deixe que eu pago pelas maçãs” “Tudo bem” Vai pro caixa acompanhada do... Qual
é o nome dele mesmo? Ele não disse. “Ei, qual seu nome mesmo?” “Danilo” A
pulsação enlouquece de tão rápida, o sonho era um sinal. E os beijos e amassos?
Ele paga as maçãs. “Me desculpe mesmo, se eu puder te compensar, olha, eu pago
um jantar pra nós dois, se quiser” “Marcado, aqui está o meu telefone” Aí
estavam os beijos e amassos “Obrigado, até mais, e mais uma vez, desculpa”
“Tudo bem, não tem problema nenhum” Ele vai embora. Que noite, que sonho. E no
final era tudo um sonho bobo. Bobo? Ela acha que foi tudo bem sério, fica
impressionada e vai pra casa. Guarda as maçãs, que bom que não amassaram quando
caíram. Quando ele liga? Será que vai ficar mudo como no sonho? Não interessa
tanto, mas ele é mesmo charmoso, e usa sim o perfume inebriante. Sorri e se
repreende. Não pode se apaixonar, mas agora é tarde demais pra se alarmar, ou
alarmar alguém. Deita na cama e pensa em dormir, dorme. Tudo escuro de novo, só
ouve “TRIIIIM TRIIIIM” Não é um, são vários telefones ao mesmo tempo. Qual é o
certo? Qual é o dele? Atende o vermelho, lembra do livro do outro sonho. “Alô?”
Alguma coisa é balbuciada do outro lado, não entende mas entra em êxtase, sabe
que é alguma coisa positiva. “TRIIIIM, TRIIIIM” Agora é de verdade, acorda pra
atender. “Alô?” “É o Danilo.” Sorri. Tudo se encaixa, é tudo destino. Ela
acredita nisso, e eu? Eu acredito? Não sei, talvez, mas eu acho que não
acredito em nada, acho que quem acredita é só ela. Mas ela sou eu, de uma forma
ou de outra. Danilo a convida pra jantar enquanto eu tenho esses devaneios, ela
aceita, claro. O jantar é amanhã, vai ser comida italiana, macarrão ou lasanha,
ainda não se sabe. Melhor não usar branco, sempre se suja com molho á bolonhesa
e mancha a roupa. Amanhã ela pensa nisso, não tem pressa nenhuma, nem vontade
de criar expectativas, ela acha que dá azar, que a gente sempre se decepciona,
por que nunca é exatamente como queremos, então nos decepcionamos mesmo quando
é melhor do que o que esperamos. Amanhã ela tem um jantar com Danilo, e sonhou
com isso antes do convite. Sorte? Destino? Não sei, você sabe? Mais um mistério
da humanidade, quem sabe alguém resolve algum dia.
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