Fiquei
excitadíssima com a possibilidade de ir ao cinema sozinha, ver um ótimo filme
naquele fim de tarde. Com a vida pacata e maçante que tenho, esse é um dos meus
maiores prazeres. Comprei um ingresso (um ingresso por favor, não, eu não estou
acompanhada e toda a discussão que sempre acontecia quando eu resolvia ver um
filme sozinha) e passei na minha livraria favorita antes que a sessão
começasse.
3 minutos -
Enquanto me divertia constatando que os livros de bolso tinham letras tão
pequenas quanto a ponta de uma agulha ao folhear O Morro Dos Ventos Uivantes,
percebi um olhar indiscreto e completamente insinuante vindo em minha direção.
Me incomodei, e não tive coragem de encarar de volta. "Qual é o problema
comigo?" pensei, visto que o sujeito – que fingia folhear um exemplar de
um livro sobre jogos de cartas – não parava de me encarar de forma estranha.
Coloquei o livrinho de bolso no lugar e resolvi comprar pipoca.
Pausa
7 minutos -
Enquanto comprava a minha adorada pipoca doce colorida e um copo médio de
refrigerante sabor limão, percebi que o sujeito estava de novo á minha
espreita. Enquanto esperava o copo de refrigerante e o troco, belisquei algumas
pipoquinhas vermelhas – que na minha opinião, concentram mais açúcar, sendo ainda mais gostosas
– enquanto ele me encarava, agora de lado. Me
apressei em entrar na sala do cinema. Ele entrou logo em seguida, por que a
vida adora nos pregar peças. Aproveitei o cinema meio cheio, meio vazio e me
sentei onde mais gostava de sentar: na cadeira do meio da fila do meio. Sempre
tive a sensação de que ali eu ia ter a melhor visão possível, que ia cobrir
todos os ângulos possíveis. Ele se sentou no canto esquerda da última fila,
desprezando a regra (que eu mesma criei, a propósito) de que no meio sempre se
vê melhor. O filme começou.
Pausa
43 minutos -
Enquanto a sala de cinema se esvaziava aos poucos, fiquei lendo os créditos,
como sempre faço. O prazer de ler nomes obscuros que colaboraram com o que eu
acabei de ver me deixam levemente excitada e impressionada. Olhei de esguela, e
ele ainda estava na sala de cinema. Estávamos sozinhos, e desta vez ele não me
encarava. Lia avidamente todos os nomes que apareciam na tela, absorvendo
letras e as transformando em palavras. Quando o filme definitivamente acabou,
me levantei para sair da sala de cinema e ele veio junto, esbarrou em mim e eu
me assustei. Derrubei o resto de pipoca que carregava em mãos no chão. "Me
desculpe" ele disse com a voz baixa, quase um sussurro rouco. "Oh,
não, está tudo bem, eu já comi as vermelhinhas." respondi em tom de
brincadeira. Ele, sem entender nada, me olhou interrogativamente, e eu me senti
na necessidade de explicá-lo melhor sobre isso. "Bom... é que eu tenho a
impressão, a grande impressão, de que as pipocas vermelhas absorvem mais
açúcar, sendo assim mais gostosas que as outras. Mas é só uma impressão, sei
lá, acho que não existe nada científico sobre isso." dei uma leve
risadinha logo que terminei de falar. Ele também riu. "Eu prefiro não
comer nada enquanto vejo um filme, tenho a sensação de que tudo pode me
distrair." era interessante que ele pensasse isso, porque eu tenho sempre
que descontar os sentimentos dos personagens em alguma coisa. "Bom, isso
vai de cada um, neste filme por exemplo, fiquei nervosa, quase comi o balde
inteiro de pipoca, e eu nunca, nunca, nunca faço isso." E ditas essas
palavras por mim, começamos uma acalorada discussão sobre o filme que tínhamos
acabado de ver. Vimos juntos e ao mesmo tempo separados, por que o destino era
ironicamente engraçado.
Pausa
74 minutos -
Fomos andando juntos até o estacionamento e procuramos um táxi para rachar,
morávamos relativamente perto, pelo que ele me explicou. Quando entramos no
táxi, finalmente tive a coragem de perguntar porque ele me encarou por tanto
tempo. "Bom, eu só queria entender como alguém pode gostar de Morro Dos
Ventos Uivantes, e ainda por cima procurá-lo em tamanho de bolso, com todas
aquelas letrinhas minúsculas." eu ri como uma abobada quando ele disse
isso, e ele, espantado, perguntou "Qual a graça?" "A graça, é
que, primeiro: eu detesto O Morro Dos Ventos Uivantes e todos aqueles
personagens sebosos, com exceção de um, e, em segundo: eu peguei justamente a
sessão de bolso para imaginar como alguém teria coragem e paciência para ler
algo com letras tão pequenas." respondi, e ele começou a rir do mesmo
jeito afetado que eu ria momentos antes. Por fim, perguntou "Qual é o
personagem que você considera uma exceção?" "A filha de Cathy com
Edgard, porque era a única que realmente amava ali. No caso, amava o pai, mais
que tudo, e eu achei isso admirável.", ele fez um gesto com a cabeça, como
se estivesse concordando. O táxi parou e ele saltou do carro, veio até a minha
janela e disse: "Á propósito, eu sou o Danilo." e dele, até hoje eu
nada mais sei. Por que histórias de amor não duram nem 90 minutos.