quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Nós

Eu, você, nós.
Desatamos nós,
nos desatamos.

Estamos sós,
não somos nós.
Somos outros
nos fazendo de nós.

Então, 
falsos e desatados,
desaparecemos.

Onde nós fomos parar?
Onde nós vamos parar?
Nós vamos parar?

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

A Maior Palavra do Mundo

A maior palavra do mundo,
é bem pequena.
Ás vezes nem a enxergamos,
ás vezes é ela que nos deixa cegos.

A maior palavra do mundo,
é aquela que nos deixa tontos,
nos dá calafrios na espinha,
e traz borboletas pro estômago.

A maior palavra do mundo,
é a maior de verdade,
porque exprime muito,
mais do que qualquer outra,
em apenas quatro letras.

A maior palavra do mundo,
é também o maior sentimento.
A maior palavra do mundo,
poderia ser o seu nome,
mas é só Amor.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Os Meios e Nunca os Fins

O cheiro do leite quente e os biscoitos amanteigados da casa da vovó costumavam ser o meu melhor remédio quando eu perdia os sapatinhos da minha boneca preferida ao brincar no quintal.

Eu era frágil, "frágil demais para existir", foi o que você me disse naquela manhã quando foi embora e não disse quando ia voltar, quando você mal sentia o meu coração bater no vácuo do nosso silêncio, mal sentia o meu coração bater dentro de você.

As lágrimas desceram como chuva de verão e mal pudemos enxergá-las na escuridão que nos cobria, sem Lua, sem estrelas. Eu acho que foi assim que você percebeu que eu era frágil demais para existir. Frágil e pesada demais para que você pudesse suportar.

Naquela cama vazia eu só tinha vontade de chorar até que meus olhos se partirem e eu finalmente pudesse dormir sem sonhar com você. Sem sonhar com você dormindo. Eu adoraria ver você dormindo agora, com seu rosto sereno e coração vazio, os fios de cabelo espetando a maciez do travesseiro estampado de amarelo-queimado, a respiração entrecortada. Então me dei conta de que era uma memória e não mais um sonho.

Tento encontrar o que perdi com e sem você, aos poucos tudo volta a ser o que era antes e você vai ficar preso no fundo da prateleira escura que existe dentro de mim, sendo um barulhinho de chuva no meu peito.

A vovó não pode mais fazer leite quente nem biscoitos amanteigados, eu não brinco mais com as minhas bonecas e não posso mais perder sapatos. Apartamento não tem quintal e meu melhor remédio é você. Eu te tiro da prateleira e aqueço meu coração, mas não me mate das dores da despedida de novo, me mate apenas de amor. E vem morrer comigo dessa vez. Vamos nascer de novo.

Vejo fotos espalhadas pelo chão, vejo você sorrindo ao correr por um campo de futebol, vejo você me beijando, vejo você me segurando como se fosse o único que pudesse me salvar. Poderia ser, e agora eu estava perdida de tanto querer te encontrar.

Não vou mais começar algo quando for tarde demais, mas o cobertor está ali se você precisar. Talvez eu não devesse ter deixado você ficar, estou fria demais pra te receber? Você realmente precisa ir, mas vamos mentir e dizer que está tudo bem, mentir é muito mais fácil quando todos têm tanta certeza e nós não deixamos que nos peguem mentindo. Vamos guardar nossas forças, temos muito o que fazer.

Diga que me ama e eu esqueço tudo isso. Outra vez. E quantas vezes mais forem preciso. Eu só quero acordar disso tudo ao seu lado. E nós nunca teremos fim.

domingo, 25 de novembro de 2012

Esquecimento

Fiz tudo oblíquo
embriagado.

Era uma frase curta,
e o tempo também,
e a saudade era longa.

Escrevi um poema
pra você lembrar
um pouquinho de mim
pra você lembrar,
que o tempo corre.

Tudo com pressa,
pra você lembrar,
por que se eu fosse com calma,
ia esquecer de tudo.

Esquecendo de mim,
de ti.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Corpo de Luz

         A sua voz entra de vez em mim, entra na minh'alma do modo mais sublime que eu poderia imaginar e me corrompe numa velocidade cruelmente excitante. Quando eu vi o azul dos teus olhos, cobalto do céu, mais profundo e intenso que o mar, ali eu me encontrei um pouco. Lembro desse teu cabelo bagunçado, displicente, caindo no rosto e apontando pra todos os lados, esse cabelo que te faz menino-homem, que te faz menino-vivo. Você é corpo de luz, é estrela, é cometa. Então eu choro por mim, choro por nós dois, que não existimos mais, que nunca existimos e que talvez nunca venhamos a existir. Mas eu gosto de imaginar, gosto de me torturar, pensando em tudo que poderíamos ter, sorrindo um para o outro. Talvez em um mundo paralelo, e não nesse mundo. Esse mundo em que o tempo não passa e ás vezes simplesmente resolve correr. Esse mundo onde te amar é anormal.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Lembranças de Passarinho

Vem pássaro meu,
abre as asas,
canta alto.

Pássaro meu,
me lembro de tudo,
de quando não tinhas penas
e nem pena de mim.

Me lembro bem,
pássaro meu,
quando não sabíamos amar
e não guardávamos rancor.

E agora, passarinho,
e agora que choramos
e as doses são pequenas,
e agora, que fazemos?

Abre as asas, pássaro meu.
Vai voar alto, passarinho.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Camaleoa

Quando o céu fica vermelho nessas madrugadas insones, as lembranças da gente se devorando aos poucos me aquecem por dentro e no fim invadem meus sonhos como as luzes da rua invadem minhas janelas nas noites boêmias. E tudo são espectros do que foi, Camaleão, e você sabe disso como ninguém. Eu também só queria saber se essas lembranças te aquecem á noite e te acalmam nas tempestades do verão, fazem cocegazinhas no teu peito quando você dorme sozinho ou te dão um nó na garganta quando você vê aquela foto em cima do criado mudo. Saiba também, Camaleão, que eu cumpri a minha promessa e não te procurei em outros olhares, outros beijos e outros amores, te guardei no meu baú para ninguém desconfiar que ás vezes dói demais.

Quando eu choro até dormir, Camaleão, parece que você nunca vai passar. Saí de mim um pouco e vai ocupar outro coração, vai.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Pássaro Meu

Te beijo, te olho,
te irrito, te quero
no meu colo.

Te provoco
só por provocar.
Te amo,
só pra você me amar.
Me amar, mas é pouquinho

Sou tua o tempo todo,
e o tempo voa.
Abre as asas e vai voar,
passarinho na gaiola.




sábado, 29 de setembro de 2012

Pro.Cras.Ti.Nar

Estou aqui sozinha deixando
tudo pra mais tarde,
procrastinando enquanto posso.
Não vou poder mais tanto tempo.

Perdi tanta coisa,
por que não agi,
por que morri um pouco,
perdi a ação.

Deixo pra chorar depois,
só pra fingir mais um pouco,
fazer de conta que sou muito forte
e que nunca vou desabar.

Então ás vezes eu percebo,
que foi por adiar tanto,
que foi por adiar tudo,
que eu perdi o pouco que sempre tinha.

E foi adiando tudo que eu me perdi.
Perdi você, e mais um pouco.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Vazia

Era você dentro de mim,
sendo parte do meu ser,
sendo quem eu sou,
me sufocando gentilmente,
me matando de amor.

O cheiro da tua pele,
a gota do meu sangue,
o mundo é nosso,
e eu sou tua.

E eu sou uma,
e eu sou nada.
Sou pouco.

Estava cheia,
e me deixou assim.

Vazia.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Insônia

Que noite se dorme bem com o coração partido? O telefone não toca mais e minha alma adormece ás portas da morte, o sono dos justos não me pertence mais. Não quero mais dormir, também não quero acordar. Me deixe mais um pouquinho na cama que os meus olhos estão doendo e as olheiras me matando. Essas olheiras vão me matar, aos poucos e aos prantos. Meu coração partido não me deixa dormir, meu ego perdido me deixa insolentemente insone. A insônia dos que já dormiram dói mais que a morte...

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Pequeno Desgosto

Ando tendo essa mania de sentir,
por algo que nunca foi ou será meu
independente de quantas vezes conjugue o verbo ser.

Inalcançável, inatingível, intocável.
E tudo isso no pedestal que eu te dei,
sendo o monstrinho que eu criei.

Suga minha alma, minhas forças,
sendo o fantasma do meu desejo.
Me fere e me cura,
mas nunca será meu.

sábado, 14 de julho de 2012

Pela Eternidade

Nas entrelinhas dos nossos dedos entrelaçados,
eu procuro um sentido para o que me é inútil.

O fútil desejo de ser tua pela eternidade
me deixa completa e inegavelmente inebriada.

Por ti, e somente por ti.

Por ti, e somente uma vez.
Por ti, e somente hoje.
Por ti, eu me vou.
Por ti, me mantenho á distância.

E não se esqueça, que é tudo por ti.
Para ti. Eternamente tua.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Histórias de Amor Não Duram Nem 90 Minutos

       Fiquei excitadíssima com a possibilidade de ir ao cinema sozinha, ver um ótimo filme naquele fim de tarde. Com a vida pacata e maçante que tenho, esse é um dos meus maiores prazeres. Comprei um ingresso (um ingresso por favor, não, eu não estou acompanhada e toda a discussão que sempre acontecia quando eu resolvia ver um filme sozinha) e passei na minha livraria favorita antes que a sessão começasse.

3 minutos - Enquanto me divertia constatando que os livros de bolso tinham letras tão pequenas quanto a ponta de uma agulha ao folhear O Morro Dos Ventos Uivantes, percebi um olhar indiscreto e completamente insinuante vindo em minha direção. Me incomodei, e não tive coragem de encarar de volta. "Qual é o problema comigo?" pensei, visto que o sujeito – que fingia folhear um exemplar de um livro sobre jogos de cartas – não parava de me encarar de forma estranha. Coloquei o livrinho de bolso no lugar e resolvi comprar pipoca.

Pausa

7 minutos - Enquanto comprava a minha adorada pipoca doce colorida e um copo médio de refrigerante sabor limão, percebi que o sujeito estava de novo á minha espreita. Enquanto esperava o copo de refrigerante e o troco, belisquei algumas pipoquinhas vermelhas – que na minha opinião, concentram mais açúcar, sendo ainda mais gostosas –  enquanto ele me encarava, agora de lado. Me apressei em entrar na sala do cinema. Ele entrou logo em seguida, por que a vida adora nos pregar peças. Aproveitei o cinema meio cheio, meio vazio e me sentei onde mais gostava de sentar: na cadeira do meio da fila do meio. Sempre tive a sensação de que ali eu ia ter a melhor visão possível, que ia cobrir todos os ângulos possíveis. Ele se sentou no canto esquerda da última fila, desprezando a regra (que eu mesma criei, a propósito) de que no meio sempre se vê melhor. O filme começou.

Pausa

43 minutos - Enquanto a sala de cinema se esvaziava aos poucos, fiquei lendo os créditos, como sempre faço. O prazer de ler nomes obscuros que colaboraram com o que eu acabei de ver me deixam levemente excitada e impressionada. Olhei de esguela, e ele ainda estava na sala de cinema. Estávamos sozinhos, e desta vez ele não me encarava. Lia avidamente todos os nomes que apareciam na tela, absorvendo letras e as transformando em palavras. Quando o filme definitivamente acabou, me levantei para sair da sala de cinema e ele veio junto, esbarrou em mim e eu me assustei. Derrubei o resto de pipoca que carregava em mãos no chão. "Me desculpe" ele disse com a voz baixa, quase um sussurro rouco. "Oh, não, está tudo bem, eu já comi as vermelhinhas." respondi em tom de brincadeira. Ele, sem entender nada, me olhou interrogativamente, e eu me senti na necessidade de explicá-lo melhor sobre isso. "Bom... é que eu tenho a impressão, a grande impressão, de que as pipocas vermelhas absorvem mais açúcar, sendo assim mais gostosas que as outras. Mas é só uma impressão, sei lá, acho que não existe nada científico sobre isso." dei uma leve risadinha logo que terminei de falar. Ele também riu. "Eu prefiro não comer nada enquanto vejo um filme, tenho a sensação de que tudo pode me distrair." era interessante que ele pensasse isso, porque eu tenho sempre que descontar os sentimentos dos personagens em alguma coisa. "Bom, isso vai de cada um, neste filme por exemplo, fiquei nervosa, quase comi o balde inteiro de pipoca, e eu nunca, nunca, nunca faço isso." E ditas essas palavras por mim, começamos uma acalorada discussão sobre o filme que tínhamos acabado de ver. Vimos juntos e ao mesmo tempo separados, por que o destino era ironicamente engraçado.

Pausa

74 minutos - Fomos andando juntos até o estacionamento e procuramos um táxi para rachar, morávamos relativamente perto, pelo que ele me explicou. Quando entramos no táxi, finalmente tive a coragem de perguntar porque ele me encarou por tanto tempo. "Bom, eu só queria entender como alguém pode gostar de Morro Dos Ventos Uivantes, e ainda por cima procurá-lo em tamanho de bolso, com todas aquelas letrinhas minúsculas." eu ri como uma abobada quando ele disse isso, e ele, espantado, perguntou "Qual a graça?" "A graça, é que, primeiro: eu detesto O Morro Dos Ventos Uivantes e todos aqueles personagens sebosos, com exceção de um, e, em segundo: eu peguei justamente a sessão de bolso para imaginar como alguém teria coragem e paciência para ler algo com letras tão pequenas." respondi, e ele começou a rir do mesmo jeito afetado que eu ria momentos antes. Por fim, perguntou "Qual é o personagem que você considera uma exceção?" "A filha de Cathy com Edgard, porque era a única que realmente amava ali. No caso, amava o pai, mais que tudo, e eu achei isso admirável.", ele fez um gesto com a cabeça, como se estivesse concordando. O táxi parou e ele saltou do carro, veio até a minha janela e disse: "Á propósito, eu sou o Danilo." e dele, até hoje eu nada mais sei. Por que histórias de amor não duram nem 90 minutos.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Sem Sentido

      Eu não dormia nada, eu só tremia e sofria. O vazio aberto no peito pela falta de amor – tanto próprio como ao próximo – fazia com que eu tivesse vertigens, chorasse. Chorei enquanto pude, enquanto ainda não secava. Mas eu sequei, e depois de secar segui em frente. Eu era o único ser vivo que não tinha sentimento qualquer, que não sabia o valor do afeto, e essa era a minha desgraça profunda, a minha maldição eterna. O cheiro doce da rosa não me trazia lembrança alguma, o amargo do fel não me era nada repulsivo. E a assim a vida era. Soltava suspiros por não poder suspirar de amor, me embebedava na esperança de me livrar de tanto tormento. Não era tão simples, eu não podia fugir, me matar, me livrar logo do que me matava, eu tinha que cumprir o contrato. Eu devia cumprir o contrato. Meu casaco preto e minhas botas marrons iam comigo aonde quer que eu fosse, e o que eu sentia por eles – por mais que fosse um sentimento ínfimo – era tudo o que eu tinha, e era nisso que eu me apoiava. 

      Anos se passaram e eu continuava sozinha com meu casaco e minhas botas, quando finalmente descobri, que a tristeza de não sentir nada era um sentimento. Todas as gerações da minha família tinha sentido sem saber, sempre houve sentimento. O contrato não existia, mas sim a ignorante tradição de seguir uma tradicional ignorância, e tão ignorante quanto os outros eu fui. Aliás, havia sido, até aquele dia. Quando descobri que podia sentir, automaticamente descobri que o amava, e nos amando fomos, até transformarmos o amor em eternidade, com filhos e netos, e ensinamos cada um deles a sentir. E assim, também os ensinamos a viver.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Falta Tempo

Faltava tudo,
faltava nada.

Faltava verbo,
adjetivo
e acima de tudo,
faltava concordância.

Faltava sol,
faltava chuva.

No fim de tudo,
só faltava tempo.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Pequenina

Minha pequena, me desculpe se não consegui te proteger de tudo, se não consegui te salvar do mundo.

Minha pequena, me desculpe se te quero tão bem, se escondo as tristezas de ti.

Minha pequena, me desculpe se no fim, elas são inevitáveis, e tudo que eu posso lhe oferecer é meu ombro pra chorar.

sábado, 24 de março de 2012

Pequeno Devaneio de Adeus

     Dei um abraço de despedida e me sentei sozinha, pensando em tudo e em nada. Percebi que quanto mais eu tentava ser indiferente, mais eu me importava, me compadecia, mais eu amava. Para mim era inevitável amá-lo daquela forma, inevitável e irresistível. Mesmo depois de tantos anos, eu continuava ali, sentada sozinha bebendo uma xícara de chá gelado enquanto observava as estrelas, guardando no peito um amor quase puro, quase fraternal, quase correspondido, um amor feito de quases. Talvez os quases me fizessem amar ainda mais, por que eu sentia vontade de tentar, de insistir, mas eu não tentava tanto, nem insistia tanto, não por mim, mas por ele, que tinha outros planos, outros sonhos e outros amores. Mesmo com o cheiro forte que vinha do chá, eu ainda sentia a essência de fruta que vinha da pele dele com uma intensidade absurda e que tinha impregnado em mim, e isso foi como um tiro acertando o meu frágil peito. Pensei nas dores que senti e nos sacrifícios que continuava fazendo por ele, por que a felicidade dele me deixava feliz, por mais clichê que isso pudesse parecer. Quando eu não o via ou não o sentia, batia uma falta, um vazio, batia uma coisa estranha, e é por isso que eu chamo de amor. Por que eu não sabia o que era, e por que me fazia bem, por mais que tivesse doído, por mais que eu tivesse que fazer sacrifícios, no fim me fazia bem. Terminei a xícara de chá e me deitei na cama – ainda com o perfume dele mexendo nas minhas entranhas como se fosse um liquidificador – e fechei os olhos pensando em talvez nunca mais acordar. Eu ia acordar? Eu queria acordar? Depois do amor que eu sentia, que era eu? Senti que talvez eu tivesse nascido para amar, não só a ele, mas senti que deveria amar tudo de bom que eu havia á minha volta e tudo que ainda viria. Adormeci pensando, amando, sonhando, adormeci com a eterna dúvida de quem era eu e com a bondosa vontade de ter nascido para amar. E ás vezes não ser amada em troca, por que nem sempre temos o que queremos ou o que merecemos. E nisso se baseia este devaneio.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Tarde Vazia

    Sinto o cheiro da grama e piso no primeiro degrau da escadaria com os olhos fechados, a brisa vai levantando o  meu cabelo lentamente. Piso no segundo degrau, a adrenalina começa a pulsar com força. Começo a correr escada a cima, os degraus vão se perdendo abaixo de mim, escuto a pedra maciça batucar embaixo do meu par de sapatos. Vou subindo os degraus como se fossem o meu destino, e eram. Subo. Subo. Subo. Começam a aparecer palavras. "Quando foi". Continuo subindo sem olhar pra trás. "Que desaprendemos". Subo sem medo, as pernas já duras e pesadas, o ar falhando. Meus pulmões doem como se eu estivesse carregando o peso do mundo em minhas costas. "A respirar?" É o último degrau daquela jornada de fé, deito na grama recém cortada e olho as nuvens com seus formatos infantis. Estou arfando sem parar, querendo todo o oxigênio possível dentro de mim. Paro e penso. "Quando foi que desaprendemos a respirar?"

sábado, 3 de março de 2012

Nadar Amar

Minhas pálpebras ficam pesadas e meu corpo começa a adormecer lentamente. Tomo um gole de café e continuo teclando, enquanto lembranças dão voltas na minha cabeça sem parar.

"Eu queria saber nadar" "O único jeito de aprender é entrando na água, tenta." "É gelada demais!"

O café quente queimou a minha garganta e eu senti um imenso prazer naquele momento, o meu presente começava a se fundir com o meu passado através das mais deliciosas lembranças que eu poderia ter.

"Eu não sei amar." "O único jeito de aprender é vivendo, tenta." "Mas eu tenho medo de me magoar!"

Meus olhos piscavam devagar, ficando um bom tempo fechados, e os flashes da vida eram jogados contra a minha retina violentamente. Era doce demais, fácil demais, era o que minha vida tinha sido.

"Eu não sei mentir." "Nem eu. Mas eu sei nadar e amar." "Nadar ao mar, nadar e amar." "Eu te amo."

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Mergulho de Vida


    Foi estranhamente desesperador saber que ele era o meu único fio de vida, e ao mesmo tempo tudo aquilo me confortava. Fechei os olhos e mergulhei esperando que seus braços gelados e compridos me erguessem com um puxão forte e que a água desaparecesse e não fosse mais a imensidão que sempre havia sido. Sempre foi um imenso pra mim, desde que eu era um botão e não uma flor, de mãos dadas com o Rei Sol, mergulhando os pezinhos na água salgada e insuportavelmente gelada para minha delicada pele de bebê, e ficou tudo ainda maior quando eu só tinha ele a quem me segurar e esperava que o mar me levasse para o fim, ou pelo menos para um novo começou depois de tudo. Senti a areia roçar no meu pé, agora com a pele grossa por culpa da falta de zelo que sempre tive comigo mesma, e com os olhos ainda fechados me lembrei das mais belas coisas do mundo e que curiosamente haviam passado despercebidas por mim. Percebi que um grão podia ser enorme e que uma gota poderia afogar, que explosões eram lindas em câmera lenta, que abraços eram quentes como café e doces como alcaçuz, que o amor poderia matar e ao mesmo tempo curar da morte, e percebi também, que enquanto eu tinha devaneios debaixo da água, a vida continuava grave e profunda como sempre tinha sido, que em todo lugar os  relógios ainda batiam a cada segundo que passava, alguém morria de alguma forma e uma criança nascia de outra, e que a vida, por mais que eu tentasse, ia continuar sendo igualmente insatisfatória, por que a própria vida era algo insatisfatório e não havia nada que eu pudesse fazer. Desisti do socorro que não chegava e bati os braços esperando a superfície chegar, e ela finalmente chegou, muito antes dos braços gelados e compridos que nunca chegaram e nem iam chegar, por que esperei demais de alguém que não esperava nada e nem nunca esperaria. Quando abri os olhos tudo brilhava como nunca tinha brilhado, talvez por que o único fio que antes me segurava á vida tinha arrebentado e agora era eu quem me segurava á vida. Eu não sabia direito que era, só sabia que era o certo, e que dali em diante em começava a viver como nunca tinha vivido. E que a verdade seja dita: eu nunca tinha realmente vivido.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Destroços da Perda

   A senilidade que o tempo lhe deu de presente e a incapacidade física de se locomover que a haviam prendido na cama não permitiram que percebesse a quantidade extensa de mudanças que aconteciam ao seu redor, destroçando, tanto em modo figurado como literal, as estruturas do lar que cultivou por tanto tempo quanto lhe foi possível. As paredes centenárias desabavam sem consolo e nunca se soube ao certo se foi pela desesperança cultivada pelos gritos e choros que deram fim á estirpe fanática que ali se criou e se perdeu ou se foram as rachaduras que o trem instaurou após tantos anos indo e vindo a poucos metros, que aliadas aos insetos que perseguiam a família desde a sua concepção, tornaram-se marcas secretamente mortais. As telhas de barro moldadas com uma perfeição de dar inveja pelo audacioso primogênito artesão da 3ª geração começavam a cair, uma por uma, se partindo no chão de cimento liso, que mesmo após tantas brigas, guerras,mortes e acidentes, era virgem de sangue, qualquer que fosse, por qualquer circunstância que fosse. O vento entrava livre pelas janelas e portas que se tornaram praticamente inexistentes com o passar dos anos e batia docemente em seu rosto enrugado e carcomido pela vida de trabalho que levou. Criou filhos, netos, bisnetos, tataranetos e criaturas que nem ao menos tinham o seu sangue, com uma devoção tão absurda e genuína, que jamais percebeu todos os defeitos e vergonhas que estavam engarranchados no sobrenome que falava com tanto orgulho e paixão. Não que achasse que fosse de alguma forma nobre, mas tinha uma convicção tão absurda de que a família conservava seus princípios a todo custo, e que amavam o próximo mais do que poderiam amar a imagem de si mesmos, que criou em volta dos alicerces puídos da casa uma aura de perfeita harmonia, e pensaria para todo o que sempre que os filhos fora do casamento, as inúmeras concubinas e as moças que quase nunca se casavam puras não era faltas ou vícios da família, mas apenas vontades desgastantes que o destino jogava sobre a casa imaculada. Os olhos que a alma havia cegado de propósito não enxergavam o desabamento quase espontâneo que infundiu sobre a casa, e ela, mesmo que soubesse, não se importaria, por que era hora de partir. Junto com ela partiam a casa, o nome e tudo o mais que havia sido cultivado, não restando sequer destroços que comprovassem a existência de algum deles na face da terra, e isso, de certa forma, a acalmava. “Que será de todos eles se eu me for antes que tudo isso tenha um fim completo?” pensava ela todos os dias de sua vida ao se deitar na cama, e agora isso já não era uma preocupação, pois era a primeira que havia pisado aquela terra e era agora, comprovadamente a última que ali ficava. No começo pensou ter sido abandonada no quarto, mas percebeu que o movimento na casa diminuía com o passar dos solstícios, até que cessou, e naquela casa que mais parecia um museu, sobrou apenas ela, com seu corpo miúdo e curvado. Fechou os olhos como se fosse dormir, mas ciente que aquilo era na verdade a morte do seu ser. Disse adeus mentalmente e a casa se foi por completo, se tornando apenas poeira na terra, levando junto todas as lembranças da existência de seres tão complexos e admiráveis.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A Morte Do Coronel


“Senti todas as minhas forças se esvaindo do meu corpo, em uma rapidez tão fluida, que chegou a ser surpreendente. Naqueles instantes eu me perdia completamente de mim mesma, me perdia dos meus sonhos e das minhas vontades, eu perdia tudo. Não tinha vontades e nem desejos mais, só sentia o peso de um rotina completamente indiferente caindo sobre as minhas costas com um força inigualável. A única coisa que eu conseguia sentir era um desespero sem precedentes, que me fazia chorar por tudo e por nada, me fazia chorar até por não saber pelo que estava chorando. Eu não sentia tristeza, mágoa, dor, só sentia esse desgastante desespero crônico, que me atingia os ossos e a alma, fazendo com que eu me perdesse cada vez mais fundo na busca por algo que eu não sabia o que era. No princípio, tudo me pareceu rotineiro e eu não simplesmente ignorei o perigo que se aproximava. Aos poucos ele foi ganhando um poder extraordinário, e eu senti a necessidade de lutar, esperançosamente, contra aquela força inabalável que tomava conta do meu ser por completo. Foi em vão. A força misteriosa me tomou por inteiro, e toda a minha vida caiu por terra tão fácil e levemente que poderia ser uma pluma levada pelo vento. Não tinha mais força e já havia desistido de tudo, meu coração já era pedra e minha cabeça era automática, tudo que eu podia fazer era excretar as lágrimas que desciam todos os dias sem pedir licença. Me exilei de tudo e de todos, as companhias que antes eu apreciava imensamente, agora me causavam dores de cabeça e até repulsa, e as pequenas coisas com as quais eu costumava sentir prazer se tornaram indiferentes para mim. Eu vegetava em vida de uma forma estranha e completamente desconhecida, mas eu mal me importava em entender aquele vazio que me impedia até de desejar a morte. O desespero se esvaia com o tempo, dando lugar a um vazia que não impedia as lágrimas de projetarem cristalinamente em meus olhos do crepúsculo ao amanhecer. Eu tinha desistido de tudo, e por ter desistido, nem vergonha disso eu conseguia sentir. Não sei até hoje como consegui sentir o embalo rasgante que cortou o meu peito em dois e me trouxe as doces lembranças da vida antes que eu desse adeus a tudo que tinha sido e a todos que tinha conhecido. Meu peito se encheu, mais uma vez, de derrota, e borbulhando por dentro, meu coração deu a sua última batida. Não tive arrependimentos por que não tive culpa alguma, o meu destino era desistir, perder, me refugiar em lágrimas perdidas e vazios vorazes e dilacerantes. Continuo sem entender o que fiz para que a indiferença pairasse sobre a minha alma, mas não questiono a força que me fez morrer aos poucos, como nunca questionei neste meio século em que estive morto a respirar. Morro agora dizendo apenas um adeus e agradecendo ao mundo por ter me acolhido, e o perdôo também pelos desatinos, dores e vazios.”

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O quê?

Uns olhos, teus olhos. Castanhos, talvez verdes, meio cinzentos. São apenas olhos, ora bolas. Mentira, seus olhos são promessas não cumpridas, frustrações, lágrimas e tristeza, e não me venha com essa de que foi sem querer. Você quis, você quer, e vai continuar querendo, e ambos sabemos disso. Você quer outra e não a mim, você quer branco e não preto, você quer abraços e não quer beijos. Quando é que você vai tomar vergonha e dizer adeus pra sempre? Não me importa que venha a doer, só me interessa o fim. É isso, justifique os meios dando um fim a tudo, meu caro, eu prometo que vou entender, como sempre fingi entender, como sempre fingi não me importar. Se quer saber, nunca entendi por que você nunca se deu ao trabalho de explicar, como todos os outros, só que eu exijo uma explicação. Já! Ou pode ser amanhã, ou depois, ou ano que vem... Perdi a pressa depois de escrever essas palavras, decidi não me chatear. Aliás, acho que você já deu um fim. Foi tão gradativo que mal percebi. Um pequeno texto escrito de madrugada, meio frustrado, inalcançável, perdi o foco e mesmo assim não quis chorar. Só lembrei. Peço desculpas pela falta de nexo desde já.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Mais Uma Estação

A chuva caí e o calor sobe pelo asfalto.
os dias amarelos vão chegando
e o lilás das flores se esvai no tempo.

Vem o vermelho das frutas maduras,
o laranja dos raios de sol
e o rosa dos lábios da morena sorrindo.

Chegam enormes e quentes beijos
se vão os doces e ternos abraços.
Dias são longos, as noites curtas
ou seriam curtos dias e longas noites?

Adeus prima querida, prima-vera,
olá calor, olá verdade, olá brisa.
És estação de chuva e canção,
natal e carnaval, és meu belo verão.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A deus, aos deuses, Adeus.


Ela se sentou e apoiou a folha de papel na escrivaninha de madeira que tinha herdado da mãe, abriu a gaveta e procurou uma caneta. Quando encontrou, começou a escrever calmamente:

"Eu contava as horas, os abraços, os sorrisos e agora só conto as lágrimas. Quando foi que nos perdemos um do outro? Por que é que foi assim tão fácil? Você era um poeta de palavras raras, palavras doces, e eu, ingênuamente, construí um sonho em cima das suas promessas. Você escrevia sobre amor, você escrevia sobre os seus sonhos, os seus medos, as suas alegrias e tristezas, e de repente tudo mudou. Eu escrevia páginas e mais páginas de sentimentos, colocava o meu coração e minha alma no papel, esperando que você respondesse da mesma forma amável que sempre respondeu, mas tudo o que eu recebia eram fragmentos do que você tinha sido: palavras duras, frias, e poucas, pouquíssimas, tudo isso em um papel roto e sujo, com as letras borradas e garranchadas. O que é que aconteceu? Não me responda, não quero me decepcionar ainda mais, eu prefiro guardar os sonhos que criei, conservar as belas memórias que ainda tenho guardadas. Escrever esta carta me dói mais do que tudo, mais do que possa imaginar, por que despedidas doem, e esse é um adeus definitivo, o que o faz ser ainda mais triste e doloroso para mim. Não quero que pense que sou covarde e egoísta, que desisti de você sem pensar duas vezes, mas lhe digo que não pensei menos que 2 mil vezes antes de pegar a caneta e lhe escrever essa carta, além do mais, eu dei todas as chances do mundo, dei meses, eu pedi sem medir palavras que me respondesse com sinceridade, com vontade, com amor, e você nunca fez nada disso. Então repito, por que estas são as últimas palavras minhas que lerá, e eu não quero nem ao menos me demorar, por que a demora pronlonga a dor e eu sei que não merece esse castigo, adeus, eu te amei como pude, e continuo amando, mas não posso continuar tentando quando você já desistiu. Adeus. Adeus. Adeus. Me perdoe por isto, mesmo eu não lhe devendo nenhuma desculpa. Adeus, tudo isto por que eu te amo e prefiro te guardar em mim enquanto você ainda não se partiu."

Deu um beijo na folha de papel molhada de lágrimas e envelopou a carta, escreveu o endereço graciosamente antes de guardar o envelope na gaveta. Naquela gaveta estavam suas esperanças, seus desejos, suas lembranças, coisas que logo logo ela mandaria ao correio para nunca mais esperar, desejar e lembrar. Algumas despedidas são realmente para sempre.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Erros Perfeitos

Meus erros são nossos,
teus erros são meus.

Não pare de chorar, mas não me impeça de sorrir.
Não se deixe levar pelo que dizem,
eu sei que você entende, eu sei que sabe de tudo.
Somos nós contra o mundo.

Somos ondas nadando contra a corrente,
mas se tentarmos poderemos voar como passáros livres.
Se errarmos podemos começar tudo de novo.
e de novo se erramos mais um pouco.

Meus erros são nossos por isso,
teus erros são meus por que te amo.
E nós somos feitos de erros e memórias,
lembranças de dias felizes no meio dessa tempestade.

Nós somos outros, não somos eles,
não desistimos nem depois de perder,
por que nunca perdemos.
Nunca nos perdemos de nós mesmos.

Eu sou você e você sabe o que eu sou,
sou a luz no meio da tua escuridão,
o fogo que acende a tua alma.
Eles não vão entender, mas posso fazer você me amar.

E a cada vez que erramos ficamos melhores,
ficamos mais fortes para tentar mais uma vez.
Quando acertarmos talvez tudo perca sentido,
é por isso que somos erros e nada mais.

Por que somos feitos de erros:
meus erros são nossos,
teus erros são meus.