terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Os Meios e Nunca os Fins

O cheiro do leite quente e os biscoitos amanteigados da casa da vovó costumavam ser o meu melhor remédio quando eu perdia os sapatinhos da minha boneca preferida ao brincar no quintal.

Eu era frágil, "frágil demais para existir", foi o que você me disse naquela manhã quando foi embora e não disse quando ia voltar, quando você mal sentia o meu coração bater no vácuo do nosso silêncio, mal sentia o meu coração bater dentro de você.

As lágrimas desceram como chuva de verão e mal pudemos enxergá-las na escuridão que nos cobria, sem Lua, sem estrelas. Eu acho que foi assim que você percebeu que eu era frágil demais para existir. Frágil e pesada demais para que você pudesse suportar.

Naquela cama vazia eu só tinha vontade de chorar até que meus olhos se partirem e eu finalmente pudesse dormir sem sonhar com você. Sem sonhar com você dormindo. Eu adoraria ver você dormindo agora, com seu rosto sereno e coração vazio, os fios de cabelo espetando a maciez do travesseiro estampado de amarelo-queimado, a respiração entrecortada. Então me dei conta de que era uma memória e não mais um sonho.

Tento encontrar o que perdi com e sem você, aos poucos tudo volta a ser o que era antes e você vai ficar preso no fundo da prateleira escura que existe dentro de mim, sendo um barulhinho de chuva no meu peito.

A vovó não pode mais fazer leite quente nem biscoitos amanteigados, eu não brinco mais com as minhas bonecas e não posso mais perder sapatos. Apartamento não tem quintal e meu melhor remédio é você. Eu te tiro da prateleira e aqueço meu coração, mas não me mate das dores da despedida de novo, me mate apenas de amor. E vem morrer comigo dessa vez. Vamos nascer de novo.

Vejo fotos espalhadas pelo chão, vejo você sorrindo ao correr por um campo de futebol, vejo você me beijando, vejo você me segurando como se fosse o único que pudesse me salvar. Poderia ser, e agora eu estava perdida de tanto querer te encontrar.

Não vou mais começar algo quando for tarde demais, mas o cobertor está ali se você precisar. Talvez eu não devesse ter deixado você ficar, estou fria demais pra te receber? Você realmente precisa ir, mas vamos mentir e dizer que está tudo bem, mentir é muito mais fácil quando todos têm tanta certeza e nós não deixamos que nos peguem mentindo. Vamos guardar nossas forças, temos muito o que fazer.

Diga que me ama e eu esqueço tudo isso. Outra vez. E quantas vezes mais forem preciso. Eu só quero acordar disso tudo ao seu lado. E nós nunca teremos fim.

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