domingo, 19 de fevereiro de 2012
Destroços da Perda
A senilidade que o tempo
lhe deu de presente e a incapacidade física de se locomover que a haviam prendido na cama não permitiram que
percebesse a quantidade extensa de mudanças que aconteciam ao seu redor,
destroçando, tanto em modo figurado como literal, as estruturas do lar que
cultivou por tanto tempo quanto lhe foi possível. As paredes centenárias desabavam
sem consolo e nunca se soube ao certo se foi pela desesperança cultivada pelos
gritos e choros que deram fim á estirpe fanática que ali se criou e se perdeu
ou se foram as rachaduras que o trem instaurou após tantos anos indo e vindo a
poucos metros, que aliadas aos insetos que perseguiam a família desde a sua
concepção, tornaram-se marcas secretamente mortais. As telhas de barro moldadas
com uma perfeição de dar inveja pelo audacioso primogênito artesão da 3ª
geração começavam a cair, uma por uma, se partindo no chão de cimento liso, que
mesmo após tantas brigas, guerras,mortes e acidentes, era virgem de sangue,
qualquer que fosse, por qualquer circunstância que fosse. O vento entrava livre
pelas janelas e portas que se tornaram praticamente inexistentes com o passar
dos anos e batia docemente em seu rosto enrugado e carcomido pela vida de
trabalho que levou. Criou filhos, netos, bisnetos, tataranetos e criaturas que
nem ao menos tinham o seu sangue, com uma devoção tão absurda e genuína, que
jamais percebeu todos os defeitos e vergonhas que estavam engarranchados no
sobrenome que falava com tanto orgulho e paixão. Não que achasse que fosse de
alguma forma nobre, mas tinha uma convicção tão absurda de que a família
conservava seus princípios a todo custo, e que amavam o próximo mais do que
poderiam amar a imagem de si mesmos, que criou em volta dos alicerces puídos da
casa uma aura de perfeita harmonia, e pensaria para todo o que sempre que os
filhos fora do casamento, as inúmeras concubinas e as moças que quase nunca se
casavam puras não era faltas ou vícios da família, mas apenas vontades
desgastantes que o destino jogava sobre a casa imaculada. Os olhos que a alma
havia cegado de propósito não enxergavam o desabamento quase espontâneo que
infundiu sobre a casa, e ela, mesmo que soubesse, não se importaria, por que
era hora de partir. Junto com ela partiam a casa, o nome e tudo o mais que
havia sido cultivado, não restando sequer destroços que comprovassem a
existência de algum deles na face da terra, e isso, de certa forma, a acalmava.
“Que será de todos eles se eu me for antes que tudo isso tenha um fim
completo?” pensava ela todos os dias de sua vida ao se deitar na cama, e agora
isso já não era uma preocupação, pois era a primeira que havia pisado aquela
terra e era agora, comprovadamente a última que ali ficava. No começo pensou
ter sido abandonada no quarto, mas percebeu que o movimento na casa diminuía
com o passar dos solstícios, até que cessou, e naquela casa que mais parecia um
museu, sobrou apenas ela, com seu corpo miúdo e curvado. Fechou os olhos como
se fosse dormir, mas ciente que aquilo era na verdade a morte do seu ser. Disse
adeus mentalmente e a casa se foi por completo, se tornando apenas poeira na
terra, levando junto todas as lembranças da existência de seres tão complexos e
admiráveis.
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