quarta-feira, 6 de junho de 2012

Sem Sentido

      Eu não dormia nada, eu só tremia e sofria. O vazio aberto no peito pela falta de amor – tanto próprio como ao próximo – fazia com que eu tivesse vertigens, chorasse. Chorei enquanto pude, enquanto ainda não secava. Mas eu sequei, e depois de secar segui em frente. Eu era o único ser vivo que não tinha sentimento qualquer, que não sabia o valor do afeto, e essa era a minha desgraça profunda, a minha maldição eterna. O cheiro doce da rosa não me trazia lembrança alguma, o amargo do fel não me era nada repulsivo. E a assim a vida era. Soltava suspiros por não poder suspirar de amor, me embebedava na esperança de me livrar de tanto tormento. Não era tão simples, eu não podia fugir, me matar, me livrar logo do que me matava, eu tinha que cumprir o contrato. Eu devia cumprir o contrato. Meu casaco preto e minhas botas marrons iam comigo aonde quer que eu fosse, e o que eu sentia por eles – por mais que fosse um sentimento ínfimo – era tudo o que eu tinha, e era nisso que eu me apoiava. 

      Anos se passaram e eu continuava sozinha com meu casaco e minhas botas, quando finalmente descobri, que a tristeza de não sentir nada era um sentimento. Todas as gerações da minha família tinha sentido sem saber, sempre houve sentimento. O contrato não existia, mas sim a ignorante tradição de seguir uma tradicional ignorância, e tão ignorante quanto os outros eu fui. Aliás, havia sido, até aquele dia. Quando descobri que podia sentir, automaticamente descobri que o amava, e nos amando fomos, até transformarmos o amor em eternidade, com filhos e netos, e ensinamos cada um deles a sentir. E assim, também os ensinamos a viver.

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