sábado, 29 de outubro de 2011

Carta Primeira: Saudade

Querido Astolfo,

        Pode ser que seja apenas mais um capricho desta minha mimada carência, mas o fato é que desejo compartilhar de vossa presença. Não da mesma maneira que desejava antes, quando desejava vê-lo para falar sobre o amor, para dizer-lhe o que se passava em meu moribundo coração, que por ti havia sido partido uma centena e meia de dolorosas vezes, mas agora desejo apenas ver-lhe e aproveitar a tua apetitosa companhia. 
        Ás vezes tenho uma grande sensação de que passei um longo tempo juntando em mim desgosto e amargura, que me esqueci completamente o quão leve é a tua risada, como tua voz é doce e aveludada aos meus ouvidos, como o vosso toque me acalma e aquece, e acima de tudo, o quanto me alegra a companhia de alguém tão despreocupado e desnudo dos problemas cotidianos.
        Espero que com o passar do tempo, não tenhas perdido tais virtudes, e sim as cativado, que as tenha tratado como a mais bela e frágil das flores, e que ainda seja o mesmo pelo qual me apaixonei sem arrependimentos tanto tempo atrás.
       Hoje, sinto a tua falta como há muito eu não sentia, e é de uma maneira tão espontânea e despretensiosa, que eu mal sei o que fazer com esta ausência que sinto de ti, a não fazer o possível para lhe ver nos próximos dias, em algum lugar calmo, onde a tua presença seja forte e me traga a paz tu sempre me trouxestes, para que eu possa me sentir bem e lhe agradecer por tudo que és para mim. Peço que aguarde meu convite de peito aberto. 

                             Com amor e carinho, da eternamente tua,
                                                     Frida.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Clichê

O som da guitarra invade o quarto enquanto ela enlouquece com uma garrafa na mão, balançando os braços freneticamente e rodopiando como uma louca, ela não liga pra nada. Pousa a garrafa na cômoda e abre as janelas, deixando a luz da lua entrar, as partículas de poeira voam pelo quarto anoitecido. Pega a garrafa e beberica do líquido, ficando ainda mais alucinada. Agora é o som do baixo. O peso do baixo pesa também seu coração, ela não aguenta e cai sobre a cama, larga a garrafa no chão, toma cuidado para que seu precioso conteúdo não derrame no tapete. Fecha os olhos. As luzes piscam e as sombras caem rapidamente. É ele? Ela não faz idéia, nunca o viu. O coração bate acelerado. É ele, desta vez é uma afirmação. Quanto mais perto ele chega mais forte fica o inebriante perfume que alguém usava (ele?), é um charme direto, que chega a ser intragável. Ele traz um livro em uma das mãos e na outra uma caixinha acamurçada de azul ou roxo, tanto faz. Casamento? Um pedido de casamento? Será? Ele se aproxima ainda mais, agora estava a meio passo dela. Ela pode ver o quanto ele é alto, não é forte, apenas alto. Toca o peito dele para saber se ele é de verdade, e ele é. “Me responda uma coisa: que é que você faz aqui?” diz ela. Ele continua mudo e se aproxima até tocá-la. Ele abre a caixinha, lá dentro um anel, não um anel qualquer, não um anel de noivado, não um anel de casamento, um anel com uma pedra diferente de todas as que ela já viu, uma pedra que parece o raiar do dia e o pôr-do sol, uma pedra que tem gotas de amor, pitadas de paixão, um anel em formato de maçã. Ele põe no dedo dela. O livro que trás na outra mão, entrega a ela, tudo isso em silêncio. O livro? Sem nome, só uma capa vermelha com um D bem grande grafado em letras douradas. Ela se assusta um pouco, mas ele é tão envolvente que ela se entrega sem medo, o abraça, e ele retribui. O beija, o agarra, eles agora estão se amassando. A luz entra forte, sem pedir, tudo foi desintegrado. Abre os olhos. Já é manhã? É sim, o sol brilha sem parar. E o anel? E o livro? Ela olha as mãos e não encontra nada, era tudo sonho. Muito real esse sonho, ela acha. Levanta da cama, o som está desligado, quem foi? Talvez ela mesma... Pega a garrafa e leva até a cozinha, guarda na geladeira. O sol entra forte pela janela e faz a chave de casa se iluminar. Um sinal para sair de casa? Quem sabe. Ela vai ao banheiro e toma um banho demorado, se troca e decide caminhar pela vizinhança. Entra no mercado, que maçãs bonitas ela vê. Resolve comprar com os trocados que estão no bolso, pega umas 5, estão de um vermelho bonito, quase da cor do anel de maçã que viu no sonho. Põe na sacola e se vira. Esbarrou em alguém, foi tudo parar no chão, que porcaria! Alguém agacha pra ajudar a pegar as maçãs. Era ele! É ele? “Me desculpe, eu não te vi, olha, deixe que eu pago pelas maçãs” “Tudo bem” Vai pro caixa acompanhada do... Qual é o nome dele mesmo? Ele não disse. “Ei, qual seu nome mesmo?” “Danilo” A pulsação enlouquece de tão rápida, o sonho era um sinal. E os beijos e amassos? Ele paga as maçãs. “Me desculpe mesmo, se eu puder te compensar, olha, eu pago um jantar pra nós dois, se quiser” “Marcado, aqui está o meu telefone” Aí estavam os beijos e amassos “Obrigado, até mais, e mais uma vez, desculpa” “Tudo bem, não tem problema nenhum” Ele vai embora. Que noite, que sonho. E no final era tudo um sonho bobo. Bobo? Ela acha que foi tudo bem sério, fica impressionada e vai pra casa. Guarda as maçãs, que bom que não amassaram quando caíram. Quando ele liga? Será que vai ficar mudo como no sonho? Não interessa tanto, mas ele é mesmo charmoso, e usa sim o perfume inebriante. Sorri e se repreende. Não pode se apaixonar, mas agora é tarde demais pra se alarmar, ou alarmar alguém. Deita na cama e pensa em dormir, dorme. Tudo escuro de novo, só ouve “TRIIIIM TRIIIIM” Não é um, são vários telefones ao mesmo tempo. Qual é o certo? Qual é o dele? Atende o vermelho, lembra do livro do outro sonho. “Alô?” Alguma coisa é balbuciada do outro lado, não entende mas entra em êxtase, sabe que é alguma coisa positiva. “TRIIIIM, TRIIIIM” Agora é de verdade, acorda pra atender. “Alô?” “É o Danilo.” Sorri. Tudo se encaixa, é tudo destino. Ela acredita nisso, e eu? Eu acredito? Não sei, talvez, mas eu acho que não acredito em nada, acho que quem acredita é só ela. Mas ela sou eu, de uma forma ou de outra. Danilo a convida pra jantar enquanto eu tenho esses devaneios, ela aceita, claro. O jantar é amanhã, vai ser comida italiana, macarrão ou lasanha, ainda não se sabe. Melhor não usar branco, sempre se suja com molho á bolonhesa e mancha a roupa. Amanhã ela pensa nisso, não tem pressa nenhuma, nem vontade de criar expectativas, ela acha que dá azar, que a gente sempre se decepciona, por que nunca é exatamente como queremos, então nos decepcionamos mesmo quando é melhor do que o que esperamos. Amanhã ela tem um jantar com Danilo, e sonhou com isso antes do convite. Sorte? Destino? Não sei, você sabe? Mais um mistério da humanidade, quem sabe alguém resolve algum dia.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A ligação

O telefone tocou,
me enrolei no fio.
O fio do desejo,
desejo de ouvir tua voz.

Você disse Olá
e tudo soou como melodia.
Deixou meu ouvido mal-acostumado
e agora eu quero sempre mais.

Quando disseste Adeus,
relutei em desligar.
Demorei a pôr o fone no gancho,
demorei a me despedir.

Ainda enrolada no fio,
me pus de pé, me fiz de forte.
Mas o fio ainda estava lá,
e a tua lembrança me corroía.

Um dia e um adeus

Quando o vi vestindo uma jaqueta de couro e sorrindo charmosamente para um bando de garotas, pensei que fosse um imbecil, que se achava “o último biscoito do pacote”, mas de alguma forma ele me era deveras atraente. O cabelo, eu sabia que tinha sido propositalmente desarrumado, e que aquele estilo de quem pegou a primeira roupa do armário era uma falseta, apenas mais um chamariz, mas o fato é que dava certo. Enquanto conversava com um amigo, o vi puxar um violão e começar a dedilhá-lo para as garotinhas que suspiravam apaixonadas. “Que estúpido, deve ser tão fútil e raso quanto elas...” pensei comigo mesma. De repente, sem querer, parei de prestar atenção à conversa e me sentei junto das garotas. Ele sorria de forma incomum e sedutora, para cada uma delas, exceto pra mim, e isso de alguma forma muito me incomodava. Eu sabia que era um patinho feio, principalmente se comparada ás outras garotas que ali estavam, todas com seu charme, cabelos sedosos, rosto maquiado, roupas provocantes e caras, enquanto eu, pobrezinha, tinha os olhos cobertos por enormes óculos, roupas comuns e um corte que mal se ajeitava ao meu cabelo rebelde. Então percebi, que ao fazer tais comparações, de alguma forma, estava sentindo uma espécie de ciúmes (eu e minha mania de sentir ciúmes do que não me pertence) de tudo o que se passava no momento. Ele começou a tocar uma de minha canções preferidas, nada conhecida do público que ali se estabeleceu. As garotas ali sentadas pararam de prestar atenção ao que ele cantava, nada contentes com a música. Eu adorei e pensei com meus botões (de fato, minha blusa tinha botões) que ele não deveria ser tão fútil quanto eu achava. Um barulho distraiu todos que lá estavam, alguém tinha chegado. As garotinhas aproveitaram este momento de distração para se levantarem, confirmando minha tese de que continuaram ali apenas por educação. Aparentemente foram cumprimentar um recém-chegado. Eu continuei aonde estava. O estranho de jaqueta de couro continuou tocando, tocou mais duas canções e colocou o violão de lado.

- Espero que tenha gostado. - disse o estranho.
- Gostei, na verdade, você tocou uma das minhas canções preferidas. - afirmei. Queria manter uma conversa estável com ele, não sei por quê.
- Qual?
- Run. Eu achava que tão poucos conheciam essa canção, aliás, você não parece muito com quem toca esse tipo de música.
- É uma música da qual simplesmente gosto, a melancolia que ela passa para quem a ouve me atrai, e eu fiquei contente em aprender a tocá-la, apesar do meu inglês não ser o melhor possível e minha voz nada comparável com a original.

      Sorri abobalhadamente para ele, e de repente estávamos em uma empolgante conversa sobre tudo: música, cinema, televisão, noticiários, astronomia, literatura, sonhos para o futuro. Descobri que tínhamos muito em comum, e que eu o tinha julgado verdadeiramente mal. Nos levantamos e fomos nos sentar em alguns banquinhos, estes meio afastados do resto das pessoas. Conversávamos tão intimamente, tão gostosamente, que mal vi o tempo passar. Ele tocou a minha mão com delicadeza, e eu vi pelo seu sorriso e pelos seus gestos, que ele tinha algum interesse em mim. Começamos então um jogo de flerte, ele do seu lado, eu do meu, tentando ser uma charmosa oponente. Eis que nos aproximamos demais, eu podendo sentir sua respiração em meu rosto. Nos beijamos. Nos beijamos como se tudo dependesse daquele beijo, nossas línguas brigando, eu perdendo o fôlego, ele também. Paramos o beijo, olhamos um paro o outro e desatamos a rir. Ele me puxou e me deu um abraçou, minha cabeça ficando apoiada em seu peito e ele passando a mão carinhosamente pelo meu cabelo.

- Sabe, eu a notei desde o momento em que você chegou. - disse ele, meio melancólico.
- Eu também o notei, de certa forma.
- Devo ser sincero, não sou desta cidade, estou aqui a passeio e vou embora amanhã. Gostaria de ficar e conhece-la melhor, mas isso não me é possível. Desculpe. - nesse momento percebi o motivo de sua melancolia.
- Oh, eu nem sei o que lhe dizer...
- Diga adeus e me dê mais um beijo. Já se foi o Sol e a Lua há muito clareou o céu, eu tenho que ir embora.
- Antes de lhe dizer adeus, quero perguntar algo que me esqueci completamente, algo que nossas conversas não permitiram. Diga-me, qual o seu nome?
- Meu nome é Danilo.

      E antes que ele pudesse perguntar o meu, o beijei calorosamente. De alguma forma estranha, eu não queria dizer como me chamava, achando que isso fosse manter uma espécie de magia sobre tudo o que nos tinha acontecido naquele dia. Pouco depois nos despedimos e ele se foi. Eu soube naquele momento que provavelmente não o voltaria a encontrar, mas não me importei. É bem verdade que ele era um rapaz muito interessante e charmoso, e que seria muito bom poder conhecê-lo melhor, encontrá-lo mais vezes. Mas isso não me era possível, e eu nada podia fazer para mudar isso. Ao menos tinha realizado um de meus sonho: ao contrário das outras garotas, que sonhavam com uma “amor de verão”, eu sempre desejei um “affair de inverno”. E agora tinha conseguido, nesta breve passagem de Danilo (é satisfatório poder escrever ou dizer esse nome para mim) pelo meu acalentado coração. Quando eu lhe disse adeus, disse sem remorso. Adeus, apenas isso e nada. Foi um dia e um adeus para mim.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

As minhas estações

    No verão, deixei a areia da praia escorrer pelos dedos, enquanto teus olhos brilhavam ao sol. Tuas mãos enlaçavam minha cintura desnuda, enquanto o gosto salgado do mar inundava nossos beijos. Desejávamos tão pouco... Almejávamos apenas estar vivos e juntos até o fim do dia, nos amar profundamente, conhecer o próximo mais do que a si mesmo.

    Então chegou o outono, e enquanto as folhas caiam e o tempo esfriava, o nosso amor aquecia. Nossos planos começaram a transcender os dias, os meses, os anos. Teus abraços e tuas carícias me faziam sorrir cada vez mais, e a pele, agora coberta por leves camadas de tecido, rapidamente se despia para que eu pudesse te mostrar todo o meu amor.

    Junto com o inverno, nosso amor começou a esfriar, tuas palavras, antes quentes e cheias de sentimentos, agora eram frias. As brigas eram constantes, e eu já temia a hora de dizeres adeus. Acho que no fundo, ambos temíamos essa hora, e por isso fomos nos afastando um do outro ainda mais. No fim da estação, disseste adeus, não apenas por ti, mas por nós dois.

    Ao contrário das flores que desabrochavam e com o tempo que ficava ameno devido á chegada da primavera, meu coração secava e minha alma gelava. Meus passeios, antes gloriosos e cheios de paixão, se tornaram frios e vazios, e eu, relutante, insistia em não deixar as lágrimas cair. Eis que conheci alguém, caloroso e disposto a me consolar. Ia começar um novo verão...

A pena e o tinteiro

Como em um lindo livro,
deixe que a alma toque o centro
dessa confusão.

Então fugiremos em versos,
procurando o inverso,
buscando atenção.

Tu tocas minha alma.
Toque meu ser,
enquanto toco aquela canção.

Leia aquele poema,
me faça ser um enigma
enquanto desvendo teus mistérios.

Me complete, poeticamente,
seja o meu parceiro,
a pena do meu tinteiro.


quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Cante, me encante, me levante.

Tu me cativas e tua sabedoria me é extremamente atraente. E isso tudo me deixa imensamente constrangida, pois é completamente errado. Eras pra ser apenas um exemplo e nada mais, mas vejo em ti, de alguma forma, um companheiro, um romance tórrido. Me sinto Lolita, e ás vezes penso que sofro do complexo de Édipo, já que és tão semelhante ao meu progenitor, mas fica tudo no ar, de maneira estranha. Ás vezes perco meu discernimento, e tudo se deve á tua presença. Todos sabem do que sinto por ti, até tu, e não fazes nada, pois sabes que é errado, e além do mais não tens interesse algum em mim. Mas o meu interesse por ti, é algo diferente de tudo que já senti, pois não tenho esperança alguma. Talvez isso tudo seja apenas admiração, e eu esteja confundindo com mil e uma coisas, mas me sinto atraída por ti, e não há nada que eu possa fazer. Tuas rugas que tanta marcam os teus olhos amendoados, teus cabelos levemente ondulados, teu corpo parcialmente longilíneo, teus ralos pêlos sobre o peito, tuas enormes mãos, tua voz a cantar o romance melódico de La Belle De Jour, tua inspiradora inteligência, tua curiosidade, o modo como és literal e sem papas na língua, tudo isso me deixa encantada. Tu me deixas encantada. E realmente me cativas, das forma como pouquíssimos me cativaram (ou nenhum).

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Quem poderá me salvar.

O som da chuva batendo na janela era música para os meus ouvidos, a imagem das gotas escorrendo pela linda janela era arrebatadora. A velha máquina de escrever fazia tac tac tac e eu continua escrevendo sem parar, escrevia como se minha vida dependesse disso, e de fato, dependia. Era o único meio de salvar a casa que eu tanto amava, a casa na qual tinha sido criado, e antes de mim os meus pais, e antes dos meus pais, os avós. Eu era o único que restava da enorme e grande família na qual eu havia sido criado, ou pelo menos era o único que me importava com aquele lugar, por que para os outros era apenas uma casa velha e para mim eram lembranças que nunca iam se apagar. Quantas vezes eu tinha quebrado o vidro da janela que agora contemplava ao jogar bola com meus amigos? Quantas vezes tropecei nos degraus daquela escada de madeira? Quantas vezes ouvi o ranger do portão de ferro? E eram essas pequenas coisas que definiam o amor que eu sentia por aquele lar. Tentei me concentrar novamente, e então percebi que a chuva tinha parado, e um arco-íris se erguia lá fora. Me levantei e abri a janela, já esperando o cheiro inebriante de grama molhada. Quando meu olfato entrou em contato com a mistura de grama e chuva, eu praticamente fui á loucura, e ficou ainda mais claro que eu deveria voltar ao trabalho. Pensei em como seria perder aqueles momentos, pensei que meus filhos jamais sentiriam todos os prazeres que eu senti em ser criança, e até mesmo em ser adulto naquela casa. Quando senti ia chorar, me sentei no velho sofá, e isso me trouxe ainda mais lembranças. Lembrei de quando pulei no sofá e quebrei o braço, mamãe desesperada me levando ao hospital, enquanto meu pai ralhava comigo. Não aguentei e tive que chorar. Pouco depois, quando ainda me encontrava sentado no sofá, limpando as lágrimas que tinha caído, ouvi o som da campanha e resolvi atender. Quando saí, encontrei um senhor de terno, que logo pensei ser problema.
- Pois não, senhor?
- Gostaria de falar com o senhor Machado. Antônio Machado Neto.
- Eu mesmo.
- O seu tio Arlindo morreu, e deixou uma boa quantia de herança para o senhor.
Entrei em choque, estava completamente fragilizado, pensando que ia perder o meu lar. Agora tinha perdido tio Arlindo, o único com quem ainda tinha contato. O dinheiro vinha a calhar, é claro, mas pouco me importava. Na verdade fiquei intrigado, pois tio Arlindo era um homem simples, morava em uma casinha pequena, vivia sem luxos e tinha um emprego comum. Percebi que o senhor de terno parecia apressado e entediado, e que tinha ficado ali, parado e calado, por um bom tempo.
- O senhor faria o favor de entrar?
- Não tenho tempo, mas aqui estão os papéis, o enterro é amanhã. Até mais. Caso tenha alguma dúvida, o meu cartão está na pasta, junto com os papéis.
Eu tinha milhões de dúvidas, e não via a hora de escrever sobre elas. Entrei em casa e comecei a escrever.