quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Lost in Translation

Chega a ser patético,
essa dança sem fim
que eu danço sozinha
enquanto penso em você.

Eu digo que não dizemos,
que disfarçamos o que sentimos.
Mas no fundo eu sei a verdade,
eu sei que "nós" é uma mera utopia.

E quando eu lembro de algum momento,
de alguma sensação sublime,
eu simplesmente me desmancho,
me sentindo descartavelmente devorada.

Então eu insisto,
que não há dicionário que faça transcrição,
que não há palavra que explique,
que nossos sentimentos não tem tradução.

domingo, 20 de setembro de 2015

Cravado

Por causa dos pesadelos que você me causa eu aprendi a chorar em silêncio, sozinha, na escuridão devastadora do meu quarto.
Você nem ao menos deve se lembrar das palavras que deixou gravadas no meu ouvido durante aquele pôr do sol alguns anos atrás, mas eu lembro, e eu vivo de memórias.
Nem passa pela sua cabeça que você está cravado em mim, como um corte mal cicatrizado, porque pra mim tudo isso é incabado. Por medo, vergonha e indecisão.
E por isso eu sofro na quietude das madrugadas, "esperando um sim, ou nunca mais".

domingo, 13 de setembro de 2015

Clean

No meio da multidão eu só conseguia ver você, como uma única palmeira em uma ilha solitária e deserta no meio do oceano, e você realmente era o que eu pensava ser a única saída para o meu naufrágio inevitável. De longe, eu conseguia ver como encara a rua, olhos vazios e pensativos, as mãos sempre inquietas, mas você não estava nervoso ou ansioso, eu sabia, eu conhecia seus movimentos, seus vícios, seus pensamentos, eu conseguia compreender o que os outros não viam. Soube ali que você não me esperava de forma alguma, muito menos naquela situação em que eu me encontrava, mesmo assim segui na sua direção com passos firmes e decididos, contrariando a minha mente que se enchia mais e mais de duvidas na sua presença. Hoje eu digo que sua presença é tóxica, que cada dia sem você é um dia mais em que me reabilito, mas naquele momento eu achava que tudo o que eu precisava era poder olhar mais uma vez dentro dos seus olhos, e de certo forma eu estava certa. Me aproximei quase como um relâmpago, um cumprimento rápido e um sorriso, fingindo que nós não tínhamos passado tanto tempo sem nos ver, mais exatamente dez meses e 8 dias, porque sim, eu contava e ainda conto quanto tempo fico longe de você. Conversamos por algum tempo, rimos juntos, dividimos sonhos e frustrações, como se a distância entre nós nunca tivesse existido, como se o tempo não tivesse passado, de repente estávamos tão conectados que falávamos as mesmas palavras, e então nós ríamos de novo. Ali eu cometia o grande erro de esquecer as feridas ainda abertas que você deixou em mim, esqueci que elas ainda não haviam cicatrizado e que eu era um alvo fácil e frágil. Quase inconsciente das minhas atitudes, estiquei o braço e acariciei seu cabelo, passei a mão pelo seu ombro e dei um passo a frente, mas você parecia ter se distanciado de repente. Com a visão turva, embriagada, repeti o movimento, com a cabeça baixa, encarando seus pés. Dei um passo á frente, você deu dois para trás. Então era isso, acabou. Desde aquele momento parei de me arriscar pela estrada tortuosa que você é, e quero continuar sóbria a cada diz que passar. Mas mesmo sóbria, eu devo admitir, só por que estou limpa, não quer dizer que eu não sinta a sua falta, não quer dizer que eu não pense em você. Mas só por hoje sou eu quem dá um passo atrás.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Um raio que cai duas vezes no mesmo lugar

Olhos negros, teus. Teus toques me cortam, teus beijos me queimam, e as cicatrizes invisíveis me fazem pensar em você, em um ciclo vicioso, onde cada vez que penso em te esquecer, lembro de novo, e de novo, e de novo...
Teu sorriso é encantadoramente errado, você é ainda mais errado, e pensar em você, é um erro absurdamente maior. Queria pedir um abraço, mas você ia notar, e como um bichinho frágil e assustado, ia correr, dizer adeus, dizer que quem imaginou fui eu. E foi. E é.
No fim das contas eu não perdi minha mania de sonhar, criar, sentir aos poucos o que não devia sentir nunca. Mas eu sinto, e sinto muito por isso. Sinto muito por estragar tudo, por ser sua demais, por tanto tempo. Talvez pelo fim dos tempos.

Você é um raio que caiu duas vezes no mesmo lugar. Você caiu em mim. Caiu duas, caiu três, caiu mil vezes.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Morto de mim

Um suspiro, um adeus.
Talvez fosse sincero demais,
Literal demais, duro demais. 
Necessário, imponente.
Concreto.

O estouro da pistola cortou o ar,
Envolveu a atmosfera
Numa dança macabra,
Rodeada pela morte, ela sorri.

Uma paixão fatal,
Um tiro no peito.
A porta se fecha.
A escuridão inunda a sala.

E ali se faz um ditado.
Minha alma pela tua.
Obrigado, de nada.
Até mais ver, até nunca mais.



segunda-feira, 13 de julho de 2015

Incorpóreo

O cheiro invade o quarto.
Madeira,
Almiscarado.

Ele abre os olhos.
Devagar,
com preguiça.

E naquele olhar me perco.
Perco o medo,
perco o sono.

E perdida nele, eu me encontro.
e naqueles olhos me vejo refletir,
e naqueles olhos eu vivo.

Então os olhos se fecham.
Volto a ser apenas um espectro,
Sem corpo, desapareço no ar.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Paradoxo Temporal Infinito

            Já haviam se passado anos desde a última vez em que ela havia visto aqueles olhos, mas eles estavam cravados em sua mente, queimados a brasa. Todas as noites antes de dormir, ela era tomada pela melancolia e a solidão, o medo de viver presa ao nada, presa a algo que era invisível. Se ela sentisse ao menos um sinal... Mas o corte era profundo, e o medo de errar era maior do que a vontade de sentir o calor dele ao seu redor novamente, mas dessa vez ela sentia que o inverno era frio demais.
Era uma noite qualquer, uma sexta comum, o vento frio batia em seu rosto e a sensação era de que mil agulhas perfuravam sua face, mas ela estava acostumada, afinal as ruas eram as mesmas desde sempre, familiares e calmas, e o frio que havia dentro de si era ainda maior do que o que sentia ali. A cabeça doía, cheia de memórias, e ela resolveu entrar na primeira porta que viu pela frente, e assim que entrou seu peito bateu mais forte. Foi ali, foi ali naquele mesmo lugar, anos atrás, que tudo tinha acontecido, e ela ainda podia sentir aqueles olhos castanhos em cima dela. Sentou no balcão e pediu o de sempre enquanto segurava as lágrimas, “uma taça de vinho tinto, por favor.” A mão direita apertava o cachecol como se ele fosse seu único resquício de sanidade, e quase era. O vinho chegou, ela tirou as luvas e as guardou na bolsa, de repente a taça de vinho parecia quente como uma chama, uma chama viva dentro dela, alguma esperança, então fechou os olhos e deu o primeiro gole. O vinho descia quente e aconchegante pela garganta, inebriando seus sentidos enquanto ela apreciava aquele pequeno momento de olhos fechados, até que ela sentiu um perfume inigualável, um perfume impossível de ser confundido e impossível de estar ali, era o cheiro que só ele tinha, que só ele poderia ter, que só ele era capaz de ter, um cheiro de guerra e paz, de amor e ódio, um cheiro de vida. Ela virou o rosto e ali estava ele, derretendo-a com seu olhar, suas mãos tremeram e tudo que ela conseguiu grunhir foi “err, oi.” Ele sorriu com aquele sorriso encantador, e ela percebeu que não ia resistir, não agora. Todos aqueles anos se transformaram em cinzas, eles conversaram a noite inteira como se nada tivesse acontecido, como se o tempo fosse um mero detalhe, passageiro e infeliz, e tudo pareceu apenas um assunto inacabado, e aquela noite iria se tornar uma réplica de tudo o que havia acontecido três anos atrás. Duas garrafas de vinho depois, um beijo foi roubado, e tudo que algum dia a fez chorar agora a fazia vibrar, sorrir, mesmo sabendo o fim de tudo aquilo, o que mais importava agora era aquele exato momento, aquele beijo, aquela sensação de que tudo ia dar certo ao menos dessa vez.
 Um táxi e mais uma garrafa de vinho depois, no apartamento dele ela se sentiu em casa, ele colocou um jazz pra tocar, ela sorriu sabendo o que viria depois disso. Pés descalços na madeira fria, vinho derramado pelo chão, uma cama desarrumada, e a sensação de estar completa. Tudo isso era como voltar no tempo. Ela sabia que o dia seguinte seria só mais um sábado comum, que essa noite ia ficar na memória, mais uma coisa pra remoer, afinal. Mas valia a pena. Valia a pena ser dele mais uma vez, valia a pena errar de novo, sem medo, e ela queria ter percebido isso mais cedo. Se ela pudesse voltar atrás, faria tudo de novo.