domingo, 13 de setembro de 2015

Clean

No meio da multidão eu só conseguia ver você, como uma única palmeira em uma ilha solitária e deserta no meio do oceano, e você realmente era o que eu pensava ser a única saída para o meu naufrágio inevitável. De longe, eu conseguia ver como encara a rua, olhos vazios e pensativos, as mãos sempre inquietas, mas você não estava nervoso ou ansioso, eu sabia, eu conhecia seus movimentos, seus vícios, seus pensamentos, eu conseguia compreender o que os outros não viam. Soube ali que você não me esperava de forma alguma, muito menos naquela situação em que eu me encontrava, mesmo assim segui na sua direção com passos firmes e decididos, contrariando a minha mente que se enchia mais e mais de duvidas na sua presença. Hoje eu digo que sua presença é tóxica, que cada dia sem você é um dia mais em que me reabilito, mas naquele momento eu achava que tudo o que eu precisava era poder olhar mais uma vez dentro dos seus olhos, e de certo forma eu estava certa. Me aproximei quase como um relâmpago, um cumprimento rápido e um sorriso, fingindo que nós não tínhamos passado tanto tempo sem nos ver, mais exatamente dez meses e 8 dias, porque sim, eu contava e ainda conto quanto tempo fico longe de você. Conversamos por algum tempo, rimos juntos, dividimos sonhos e frustrações, como se a distância entre nós nunca tivesse existido, como se o tempo não tivesse passado, de repente estávamos tão conectados que falávamos as mesmas palavras, e então nós ríamos de novo. Ali eu cometia o grande erro de esquecer as feridas ainda abertas que você deixou em mim, esqueci que elas ainda não haviam cicatrizado e que eu era um alvo fácil e frágil. Quase inconsciente das minhas atitudes, estiquei o braço e acariciei seu cabelo, passei a mão pelo seu ombro e dei um passo a frente, mas você parecia ter se distanciado de repente. Com a visão turva, embriagada, repeti o movimento, com a cabeça baixa, encarando seus pés. Dei um passo á frente, você deu dois para trás. Então era isso, acabou. Desde aquele momento parei de me arriscar pela estrada tortuosa que você é, e quero continuar sóbria a cada diz que passar. Mas mesmo sóbria, eu devo admitir, só por que estou limpa, não quer dizer que eu não sinta a sua falta, não quer dizer que eu não pense em você. Mas só por hoje sou eu quem dá um passo atrás.

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