terça-feira, 5 de maio de 2015

Paradoxo Temporal Infinito

            Já haviam se passado anos desde a última vez em que ela havia visto aqueles olhos, mas eles estavam cravados em sua mente, queimados a brasa. Todas as noites antes de dormir, ela era tomada pela melancolia e a solidão, o medo de viver presa ao nada, presa a algo que era invisível. Se ela sentisse ao menos um sinal... Mas o corte era profundo, e o medo de errar era maior do que a vontade de sentir o calor dele ao seu redor novamente, mas dessa vez ela sentia que o inverno era frio demais.
Era uma noite qualquer, uma sexta comum, o vento frio batia em seu rosto e a sensação era de que mil agulhas perfuravam sua face, mas ela estava acostumada, afinal as ruas eram as mesmas desde sempre, familiares e calmas, e o frio que havia dentro de si era ainda maior do que o que sentia ali. A cabeça doía, cheia de memórias, e ela resolveu entrar na primeira porta que viu pela frente, e assim que entrou seu peito bateu mais forte. Foi ali, foi ali naquele mesmo lugar, anos atrás, que tudo tinha acontecido, e ela ainda podia sentir aqueles olhos castanhos em cima dela. Sentou no balcão e pediu o de sempre enquanto segurava as lágrimas, “uma taça de vinho tinto, por favor.” A mão direita apertava o cachecol como se ele fosse seu único resquício de sanidade, e quase era. O vinho chegou, ela tirou as luvas e as guardou na bolsa, de repente a taça de vinho parecia quente como uma chama, uma chama viva dentro dela, alguma esperança, então fechou os olhos e deu o primeiro gole. O vinho descia quente e aconchegante pela garganta, inebriando seus sentidos enquanto ela apreciava aquele pequeno momento de olhos fechados, até que ela sentiu um perfume inigualável, um perfume impossível de ser confundido e impossível de estar ali, era o cheiro que só ele tinha, que só ele poderia ter, que só ele era capaz de ter, um cheiro de guerra e paz, de amor e ódio, um cheiro de vida. Ela virou o rosto e ali estava ele, derretendo-a com seu olhar, suas mãos tremeram e tudo que ela conseguiu grunhir foi “err, oi.” Ele sorriu com aquele sorriso encantador, e ela percebeu que não ia resistir, não agora. Todos aqueles anos se transformaram em cinzas, eles conversaram a noite inteira como se nada tivesse acontecido, como se o tempo fosse um mero detalhe, passageiro e infeliz, e tudo pareceu apenas um assunto inacabado, e aquela noite iria se tornar uma réplica de tudo o que havia acontecido três anos atrás. Duas garrafas de vinho depois, um beijo foi roubado, e tudo que algum dia a fez chorar agora a fazia vibrar, sorrir, mesmo sabendo o fim de tudo aquilo, o que mais importava agora era aquele exato momento, aquele beijo, aquela sensação de que tudo ia dar certo ao menos dessa vez.
 Um táxi e mais uma garrafa de vinho depois, no apartamento dele ela se sentiu em casa, ele colocou um jazz pra tocar, ela sorriu sabendo o que viria depois disso. Pés descalços na madeira fria, vinho derramado pelo chão, uma cama desarrumada, e a sensação de estar completa. Tudo isso era como voltar no tempo. Ela sabia que o dia seguinte seria só mais um sábado comum, que essa noite ia ficar na memória, mais uma coisa pra remoer, afinal. Mas valia a pena. Valia a pena ser dele mais uma vez, valia a pena errar de novo, sem medo, e ela queria ter percebido isso mais cedo. Se ela pudesse voltar atrás, faria tudo de novo.

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