quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Meus Cinco Sentidos

Tudo começou com um olhar,
minha visão capturando a tua face.
Olhares nossos sendo cruzados,
alguns poucos me forço a desviar.

Então ouvi a tua voz,
de uma rouquidão estremecedora,
o som quase desafinado,
você chegando aos meus ouvidos.

Nos aproximamos e eu senti teu cheiro.
Um aroma sobrenatural, amadeirado,
meu olfato enlouqueceu de vontade.
Quis respirar mais profundo o que é teu.

Toquei tua mão, áspera e viril.
Toquei teu braço, tão teu
que eu quis que fosse meu.
De imediato, forcei um contato.

Não pude segurar o beijo.
Finalmente senti teu gosto,
Amargo e doce, diferente e igual,
um gosto teu, só teu.

E foi por ti que eles vieram,
se aprofundaram.
Aticei meus sentidos somente ao teu lado.

O conto do Corvo ou coisa que valha

Todos os dias quando o sol se punha, o Corvo pousava calmamente na goiabeira seca do quintal e começa a berrar. Berrava, gritava, esperneava, e ninguém ouvia o Corvo, logo ele, que nunca havia feito mal a ninguém e apenas trazia notícias - sérias notícias -. Todos os dias pousava no galho mais alto e berrava o obituário, ninguém se dignava a abrir a janela ou a porta, a sair da casa prestar atenção aos recados do Corvo. Entristecido com tudo o que acontecia, o Corvo foi visitar alguns amigos que pousavam em uma praça, amigos muito viajados, que já haviam ido a todas as partes do mundo noticiar as mortes, alguns até noticiaram mortes importantes, como a de reis e rainhas, presidentes e faraós, tais corvos lhe disseram que era melhor partir para uma terra muito bonita, onde todos estariam atentos ás suas notícias, agradecendo as informações com generosos pedaços de pão e até mesmo longas conversas. Decidido, o Corvo se despediu emocionado da família em que estivera por anos e se pôs a voar. Voou, voou, viu brisas e tempestades, lagos e mares, até chegar á tal terrinha, onde corvos eram amados e respeitados como deveriam ser. Batendo asas, comemorou sua chegada ao tal esperado lugar pousando em uma bela árvore, de madeira avermelhada e tronco firme, nem tão alto que não pudessem ouvi-lo, nem tão baixa que não ficasse imponente. Berrou, berrou, berrou. Veio uma senhora vestindo luto, bem velha, as marcas da vida em todo o rosto, apoiou-se ao batente da janela e ouviu tudo o Corvo tinha a gritar. Quando o Corvo silenciou, a calma senhora retirou-se para dentro do sobrado azul desbotado em que vivia e voltou com um enorme pedaço de pão. Sorriu e começou a falar com o Corvo enquanto jogava pedacinhos de pão em sua direção. O Corvo ficou satisfeitíssimo com tanta hospitalidade e generosidade, pensou consigo mesmo que aquilo era seu maior sonho sendo realizado, pensou em como era bom alguém que quisesse ouvi-lo e contar-lhe da vida. Passaram se meses, e o Corvo, antes feliz da vida com a generosa senhora, começou a se deprimir. A senhora era sozinha e vivia triste em seu luto, quase não saia de casa, quase não recebia visitas, quase não se movimentava. O Corvo, mesmo sem querer, comparou tudo isso com o que acontecia em seu antigo lar, onde crianças corriam o dia todo, haviam festas e visitas, brigas e abraços, e de repente sentiu um vazio no peito, um sentimento dilacerante, um dor cortante, sentiu uma saudade devastadora de tudo que vivia antes, por que o sol que batia aqui não era o mesmo que batia lá, esta árvore não dava frutos e as flores quase sempre morriam de secas. Pensou por dias, meses, semanas, e no fim das contas decidiu voltar para a velha goiabeira, onde não lhe davam atenção mas ele se sentia feliz da mesma maneira. Em seu último dia naquela árvore, deu suas notícias calmamente e esperou a senhora dizer tudo o que dia a lhe dizer, quando ela entrou para buscar o pedaço de pão como de costume ele pousou no batente da janela e a esperou. Ela, tranquilamente, passou uma das velhas mãos sobra a cabeça do corvo, deu a ele o pedaço de pão e disse-lhe: "Eu sei que tu vais embora corvinho, tu vais como os outros se foram. Faço o que posso para dar-lhes companhia, mas nunca é o bastante... Vá e siga o teu caminho, vá, vá logo pois não gosto de despedidas." Seus olhos marejaram e duas lágrimas caíram. O Corvo bateu asas, e ao invés de ir embora como tinha planejado, ficou. Ficou por que aquela senhora tão triste e sozinha precisava mais dele do que ele precisava da família feliz e alegre onde vivia antes, e quando alguém precisa mais de nós do que nós precisamos de algo, alguém precisa ceder, e quem cedeu foi o Corvo. A senhora morreu pouco tempo depois, e então ele voltou para o seu antigo lar, voltou feliz por ter estado com aquela senhora até os seus últimos momentos. Algum tempo depois, quando as crianças já eram adultos, e os adultos já eram idosos, foi a vez do Corvo ir. Ele morreu no pousado no galho da goiabeira, depois de dar sua últimas notícias. E você? Já cedeu por alguém? Cederia por alguém? Você faria o que o Corvo fez?

sábado, 17 de dezembro de 2011

A primeira manhã

Acordei e me deparei com aquela cascata de fios negros jogados pelo meu travesseiro, suas costas nuas pareciam sorrir deliciosamente para mim enquanto o sol da manhã adentrava pelo quarto. Ri e comecei a me lembrar em como a noite havia nos trazido até a cama. Ela começou a se mexer e acabou se virando para mim, os olhos já estavam abertos e o sorriso era estonteante. "Bom dia", dissemos um para o outro em uníssono e neste exato momento percebi que tal sincronia nunca havia acontecido com nenhuma outra.  Me levantei e preparei café, ela insistiu em beber leite (não gosta de café, ao que parece) e conversamos sobre casualidades, éramos parecidos e ao mesmo tempo diferentes, formando uma mescla surpreendente de aprovação e discórdia, deixando tudo ainda mais quente e exitante. Ela se vestiu e me beijou calorosamente, pressenti que era uma despedida e fiz o que pude para adiá-la. A despi por inteiro e fizemos amor novamente, desta vez foi tudo ainda mais voraz e intenso, houveram mordidas e arranhões, arrancamos fios de cabelo e perdemos o ar. Dormimos algumas horas e quando ela acordou já era noite no meu canto do mundo, desta vez ela se vestiu sem pensar, quase correndo, beijei-a e ela saiu pela porta. Fui para a varanda e fitei a lua cheia que iluminava a cidade chuvosa, sua luz sendo refletida na vidraça dos arranha-céus, as gotas de chuva que caia pareciam pequenos diamantes jogados pelo asfalto. Foi um ótimo dia porque passei cada minuto ao lado dela. Não sei se a amo ou se estou apenas apaixonado, mas posso afirmar que sua companhia me é extremamente agradável, insanamente prazerosa. Não posso procurá-la por que nem sequer sei onde a encontrar, mas sei que quando eu (ou ela) precisar nós nos encontraremos. O nome dela? Poesia leve e melodia doce aos meus ouvidos, segredo completo e de Estado, ninguém jamais poderia saber mas não me segurei e vou ter que revelar. Seu nome é belo e calmo, eu me assusto sempre que ouço, não importando o sentindo, seu nome é Alma, minha querida Alma, minh'Alma...

Ela e ele, ou ele e ela?

Ela

"Passo horas tentando decifrar onde tudo começou e quando tudo desandou. Em um tempo de choros e desilusões, restaram eu e meus devaneios sobre o futuro. Aliás, o que restou de mim? Sei que não restou nada de nós, até por quê nós nunca existimos. Em mim restaram mágoas e o medo de que tudo aconteça novamente, além do desejo de que isso tudo não aconteça mais, por que eu sei que toda a dor pertenceu só a mim. Sei que não há culpa em nenhum de nós, então não existem perdões, e por mais que tudo tenha se tornado esse círculo de dor, agradeço a ele por tudo."

Ele

"Ela pensei que tudo fosse recíproco, eu queria tanto que isso fosse real... A verdade é que o meu maior pesadelo era fazê-la sofrer, mas tudo foi inevitavelmente inevitável. Eu disse não e destruí os sonhos que ela passou meses construindo, agora sobram nela anos de mágoa. Ela é forte e volar ao mundo do mesmo jeito que entrou, vai ser feliz e perceber que tudo o que fiz foi porque tive medo, e ainda tenho. Não peço perdão por algo que não fiz, um pecado que não cometi, tudo que fiz foi pra proteger tanto a ela quanto a mim."