quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Sigo

Naquele momento eu senti algo mudar de forma drástica, eu sabia que algo em mim não era mais o mesmo, e ali, ao ouvir aquelas palavras, eu soube o que era. Vi se partir, junto com o som rouco e manso daquela voz, meu ultimo espectro de esperança, ou otimismo, quem sabe. Talvez tenha sido o fim mais definitivo que eu havia escutado nos últimos tempos, e essa afirmação da negação despertou uma espécie de desespero controlado dentro de mim, com corpo, mente, e sobretudo alma, tentando digerir tudo que havia sido dito ali, e tudo que havia ficado por dizer também. Então eu, que insistentemente via um brilho cegante naqueles olhos, os vi foscos, e ali eu o vi como ele realmente era. O homem que eu conheci todo aquele tempo atrás era o mesmo, mas era outro, tinha morrido, mas estava mais vivo do que nunca. E eu também. Eu precisei morrer ali para entender que precisava viver de novo, e decidi que ia lutar cada batalha, um instante de cada vez, e que ia deixar meus olhos brilharem com a mesma nitidez que eu vi os olhos dele brilharem por todo esse tempo. Eu decidi parar de procurar, porque eu sabia que não ia encontrar algo igual, e que eu precisava, antes de qualquer caça, entender o que realmente queria, eu precisava compreender quem eu sou antes de decidir quem eu procurava.

Mesmo que eu entendesse tudo isso, que aquele susto tenha servido de epifania, eu não vou negar que eu sinto dor. Eu não vou negar que sou humana. Mas com toda a fé e com toda a força, eu sei que vou me acostumar com essas pontadas de ardência no peito, e vou aprender um pouco a cada dia de luto.

Sete estágios de luto para os que ainda estão vivos.

Make your little get awayMy pride will keep me companyAnd you just gave yours all away

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Lost in Translation

Chega a ser patético,
essa dança sem fim
que eu danço sozinha
enquanto penso em você.

Eu digo que não dizemos,
que disfarçamos o que sentimos.
Mas no fundo eu sei a verdade,
eu sei que "nós" é uma mera utopia.

E quando eu lembro de algum momento,
de alguma sensação sublime,
eu simplesmente me desmancho,
me sentindo descartavelmente devorada.

Então eu insisto,
que não há dicionário que faça transcrição,
que não há palavra que explique,
que nossos sentimentos não tem tradução.

domingo, 20 de setembro de 2015

Cravado

Por causa dos pesadelos que você me causa eu aprendi a chorar em silêncio, sozinha, na escuridão devastadora do meu quarto.
Você nem ao menos deve se lembrar das palavras que deixou gravadas no meu ouvido durante aquele pôr do sol alguns anos atrás, mas eu lembro, e eu vivo de memórias.
Nem passa pela sua cabeça que você está cravado em mim, como um corte mal cicatrizado, porque pra mim tudo isso é incabado. Por medo, vergonha e indecisão.
E por isso eu sofro na quietude das madrugadas, "esperando um sim, ou nunca mais".

domingo, 13 de setembro de 2015

Clean

No meio da multidão eu só conseguia ver você, como uma única palmeira em uma ilha solitária e deserta no meio do oceano, e você realmente era o que eu pensava ser a única saída para o meu naufrágio inevitável. De longe, eu conseguia ver como encara a rua, olhos vazios e pensativos, as mãos sempre inquietas, mas você não estava nervoso ou ansioso, eu sabia, eu conhecia seus movimentos, seus vícios, seus pensamentos, eu conseguia compreender o que os outros não viam. Soube ali que você não me esperava de forma alguma, muito menos naquela situação em que eu me encontrava, mesmo assim segui na sua direção com passos firmes e decididos, contrariando a minha mente que se enchia mais e mais de duvidas na sua presença. Hoje eu digo que sua presença é tóxica, que cada dia sem você é um dia mais em que me reabilito, mas naquele momento eu achava que tudo o que eu precisava era poder olhar mais uma vez dentro dos seus olhos, e de certo forma eu estava certa. Me aproximei quase como um relâmpago, um cumprimento rápido e um sorriso, fingindo que nós não tínhamos passado tanto tempo sem nos ver, mais exatamente dez meses e 8 dias, porque sim, eu contava e ainda conto quanto tempo fico longe de você. Conversamos por algum tempo, rimos juntos, dividimos sonhos e frustrações, como se a distância entre nós nunca tivesse existido, como se o tempo não tivesse passado, de repente estávamos tão conectados que falávamos as mesmas palavras, e então nós ríamos de novo. Ali eu cometia o grande erro de esquecer as feridas ainda abertas que você deixou em mim, esqueci que elas ainda não haviam cicatrizado e que eu era um alvo fácil e frágil. Quase inconsciente das minhas atitudes, estiquei o braço e acariciei seu cabelo, passei a mão pelo seu ombro e dei um passo a frente, mas você parecia ter se distanciado de repente. Com a visão turva, embriagada, repeti o movimento, com a cabeça baixa, encarando seus pés. Dei um passo á frente, você deu dois para trás. Então era isso, acabou. Desde aquele momento parei de me arriscar pela estrada tortuosa que você é, e quero continuar sóbria a cada diz que passar. Mas mesmo sóbria, eu devo admitir, só por que estou limpa, não quer dizer que eu não sinta a sua falta, não quer dizer que eu não pense em você. Mas só por hoje sou eu quem dá um passo atrás.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Um raio que cai duas vezes no mesmo lugar

Olhos negros, teus. Teus toques me cortam, teus beijos me queimam, e as cicatrizes invisíveis me fazem pensar em você, em um ciclo vicioso, onde cada vez que penso em te esquecer, lembro de novo, e de novo, e de novo...
Teu sorriso é encantadoramente errado, você é ainda mais errado, e pensar em você, é um erro absurdamente maior. Queria pedir um abraço, mas você ia notar, e como um bichinho frágil e assustado, ia correr, dizer adeus, dizer que quem imaginou fui eu. E foi. E é.
No fim das contas eu não perdi minha mania de sonhar, criar, sentir aos poucos o que não devia sentir nunca. Mas eu sinto, e sinto muito por isso. Sinto muito por estragar tudo, por ser sua demais, por tanto tempo. Talvez pelo fim dos tempos.

Você é um raio que caiu duas vezes no mesmo lugar. Você caiu em mim. Caiu duas, caiu três, caiu mil vezes.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Morto de mim

Um suspiro, um adeus.
Talvez fosse sincero demais,
Literal demais, duro demais. 
Necessário, imponente.
Concreto.

O estouro da pistola cortou o ar,
Envolveu a atmosfera
Numa dança macabra,
Rodeada pela morte, ela sorri.

Uma paixão fatal,
Um tiro no peito.
A porta se fecha.
A escuridão inunda a sala.

E ali se faz um ditado.
Minha alma pela tua.
Obrigado, de nada.
Até mais ver, até nunca mais.



segunda-feira, 13 de julho de 2015

Incorpóreo

O cheiro invade o quarto.
Madeira,
Almiscarado.

Ele abre os olhos.
Devagar,
com preguiça.

E naquele olhar me perco.
Perco o medo,
perco o sono.

E perdida nele, eu me encontro.
e naqueles olhos me vejo refletir,
e naqueles olhos eu vivo.

Então os olhos se fecham.
Volto a ser apenas um espectro,
Sem corpo, desapareço no ar.