quinta-feira, 14 de junho de 2012

Histórias de Amor Não Duram Nem 90 Minutos

       Fiquei excitadíssima com a possibilidade de ir ao cinema sozinha, ver um ótimo filme naquele fim de tarde. Com a vida pacata e maçante que tenho, esse é um dos meus maiores prazeres. Comprei um ingresso (um ingresso por favor, não, eu não estou acompanhada e toda a discussão que sempre acontecia quando eu resolvia ver um filme sozinha) e passei na minha livraria favorita antes que a sessão começasse.

3 minutos - Enquanto me divertia constatando que os livros de bolso tinham letras tão pequenas quanto a ponta de uma agulha ao folhear O Morro Dos Ventos Uivantes, percebi um olhar indiscreto e completamente insinuante vindo em minha direção. Me incomodei, e não tive coragem de encarar de volta. "Qual é o problema comigo?" pensei, visto que o sujeito – que fingia folhear um exemplar de um livro sobre jogos de cartas – não parava de me encarar de forma estranha. Coloquei o livrinho de bolso no lugar e resolvi comprar pipoca.

Pausa

7 minutos - Enquanto comprava a minha adorada pipoca doce colorida e um copo médio de refrigerante sabor limão, percebi que o sujeito estava de novo á minha espreita. Enquanto esperava o copo de refrigerante e o troco, belisquei algumas pipoquinhas vermelhas – que na minha opinião, concentram mais açúcar, sendo ainda mais gostosas –  enquanto ele me encarava, agora de lado. Me apressei em entrar na sala do cinema. Ele entrou logo em seguida, por que a vida adora nos pregar peças. Aproveitei o cinema meio cheio, meio vazio e me sentei onde mais gostava de sentar: na cadeira do meio da fila do meio. Sempre tive a sensação de que ali eu ia ter a melhor visão possível, que ia cobrir todos os ângulos possíveis. Ele se sentou no canto esquerda da última fila, desprezando a regra (que eu mesma criei, a propósito) de que no meio sempre se vê melhor. O filme começou.

Pausa

43 minutos - Enquanto a sala de cinema se esvaziava aos poucos, fiquei lendo os créditos, como sempre faço. O prazer de ler nomes obscuros que colaboraram com o que eu acabei de ver me deixam levemente excitada e impressionada. Olhei de esguela, e ele ainda estava na sala de cinema. Estávamos sozinhos, e desta vez ele não me encarava. Lia avidamente todos os nomes que apareciam na tela, absorvendo letras e as transformando em palavras. Quando o filme definitivamente acabou, me levantei para sair da sala de cinema e ele veio junto, esbarrou em mim e eu me assustei. Derrubei o resto de pipoca que carregava em mãos no chão. "Me desculpe" ele disse com a voz baixa, quase um sussurro rouco. "Oh, não, está tudo bem, eu já comi as vermelhinhas." respondi em tom de brincadeira. Ele, sem entender nada, me olhou interrogativamente, e eu me senti na necessidade de explicá-lo melhor sobre isso. "Bom... é que eu tenho a impressão, a grande impressão, de que as pipocas vermelhas absorvem mais açúcar, sendo assim mais gostosas que as outras. Mas é só uma impressão, sei lá, acho que não existe nada científico sobre isso." dei uma leve risadinha logo que terminei de falar. Ele também riu. "Eu prefiro não comer nada enquanto vejo um filme, tenho a sensação de que tudo pode me distrair." era interessante que ele pensasse isso, porque eu tenho sempre que descontar os sentimentos dos personagens em alguma coisa. "Bom, isso vai de cada um, neste filme por exemplo, fiquei nervosa, quase comi o balde inteiro de pipoca, e eu nunca, nunca, nunca faço isso." E ditas essas palavras por mim, começamos uma acalorada discussão sobre o filme que tínhamos acabado de ver. Vimos juntos e ao mesmo tempo separados, por que o destino era ironicamente engraçado.

Pausa

74 minutos - Fomos andando juntos até o estacionamento e procuramos um táxi para rachar, morávamos relativamente perto, pelo que ele me explicou. Quando entramos no táxi, finalmente tive a coragem de perguntar porque ele me encarou por tanto tempo. "Bom, eu só queria entender como alguém pode gostar de Morro Dos Ventos Uivantes, e ainda por cima procurá-lo em tamanho de bolso, com todas aquelas letrinhas minúsculas." eu ri como uma abobada quando ele disse isso, e ele, espantado, perguntou "Qual a graça?" "A graça, é que, primeiro: eu detesto O Morro Dos Ventos Uivantes e todos aqueles personagens sebosos, com exceção de um, e, em segundo: eu peguei justamente a sessão de bolso para imaginar como alguém teria coragem e paciência para ler algo com letras tão pequenas." respondi, e ele começou a rir do mesmo jeito afetado que eu ria momentos antes. Por fim, perguntou "Qual é o personagem que você considera uma exceção?" "A filha de Cathy com Edgard, porque era a única que realmente amava ali. No caso, amava o pai, mais que tudo, e eu achei isso admirável.", ele fez um gesto com a cabeça, como se estivesse concordando. O táxi parou e ele saltou do carro, veio até a minha janela e disse: "Á propósito, eu sou o Danilo." e dele, até hoje eu nada mais sei. Por que histórias de amor não duram nem 90 minutos.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Sem Sentido

      Eu não dormia nada, eu só tremia e sofria. O vazio aberto no peito pela falta de amor – tanto próprio como ao próximo – fazia com que eu tivesse vertigens, chorasse. Chorei enquanto pude, enquanto ainda não secava. Mas eu sequei, e depois de secar segui em frente. Eu era o único ser vivo que não tinha sentimento qualquer, que não sabia o valor do afeto, e essa era a minha desgraça profunda, a minha maldição eterna. O cheiro doce da rosa não me trazia lembrança alguma, o amargo do fel não me era nada repulsivo. E a assim a vida era. Soltava suspiros por não poder suspirar de amor, me embebedava na esperança de me livrar de tanto tormento. Não era tão simples, eu não podia fugir, me matar, me livrar logo do que me matava, eu tinha que cumprir o contrato. Eu devia cumprir o contrato. Meu casaco preto e minhas botas marrons iam comigo aonde quer que eu fosse, e o que eu sentia por eles – por mais que fosse um sentimento ínfimo – era tudo o que eu tinha, e era nisso que eu me apoiava. 

      Anos se passaram e eu continuava sozinha com meu casaco e minhas botas, quando finalmente descobri, que a tristeza de não sentir nada era um sentimento. Todas as gerações da minha família tinha sentido sem saber, sempre houve sentimento. O contrato não existia, mas sim a ignorante tradição de seguir uma tradicional ignorância, e tão ignorante quanto os outros eu fui. Aliás, havia sido, até aquele dia. Quando descobri que podia sentir, automaticamente descobri que o amava, e nos amando fomos, até transformarmos o amor em eternidade, com filhos e netos, e ensinamos cada um deles a sentir. E assim, também os ensinamos a viver.