terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Mergulho de Vida


    Foi estranhamente desesperador saber que ele era o meu único fio de vida, e ao mesmo tempo tudo aquilo me confortava. Fechei os olhos e mergulhei esperando que seus braços gelados e compridos me erguessem com um puxão forte e que a água desaparecesse e não fosse mais a imensidão que sempre havia sido. Sempre foi um imenso pra mim, desde que eu era um botão e não uma flor, de mãos dadas com o Rei Sol, mergulhando os pezinhos na água salgada e insuportavelmente gelada para minha delicada pele de bebê, e ficou tudo ainda maior quando eu só tinha ele a quem me segurar e esperava que o mar me levasse para o fim, ou pelo menos para um novo começou depois de tudo. Senti a areia roçar no meu pé, agora com a pele grossa por culpa da falta de zelo que sempre tive comigo mesma, e com os olhos ainda fechados me lembrei das mais belas coisas do mundo e que curiosamente haviam passado despercebidas por mim. Percebi que um grão podia ser enorme e que uma gota poderia afogar, que explosões eram lindas em câmera lenta, que abraços eram quentes como café e doces como alcaçuz, que o amor poderia matar e ao mesmo tempo curar da morte, e percebi também, que enquanto eu tinha devaneios debaixo da água, a vida continuava grave e profunda como sempre tinha sido, que em todo lugar os  relógios ainda batiam a cada segundo que passava, alguém morria de alguma forma e uma criança nascia de outra, e que a vida, por mais que eu tentasse, ia continuar sendo igualmente insatisfatória, por que a própria vida era algo insatisfatório e não havia nada que eu pudesse fazer. Desisti do socorro que não chegava e bati os braços esperando a superfície chegar, e ela finalmente chegou, muito antes dos braços gelados e compridos que nunca chegaram e nem iam chegar, por que esperei demais de alguém que não esperava nada e nem nunca esperaria. Quando abri os olhos tudo brilhava como nunca tinha brilhado, talvez por que o único fio que antes me segurava á vida tinha arrebentado e agora era eu quem me segurava á vida. Eu não sabia direito que era, só sabia que era o certo, e que dali em diante em começava a viver como nunca tinha vivido. E que a verdade seja dita: eu nunca tinha realmente vivido.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Destroços da Perda

   A senilidade que o tempo lhe deu de presente e a incapacidade física de se locomover que a haviam prendido na cama não permitiram que percebesse a quantidade extensa de mudanças que aconteciam ao seu redor, destroçando, tanto em modo figurado como literal, as estruturas do lar que cultivou por tanto tempo quanto lhe foi possível. As paredes centenárias desabavam sem consolo e nunca se soube ao certo se foi pela desesperança cultivada pelos gritos e choros que deram fim á estirpe fanática que ali se criou e se perdeu ou se foram as rachaduras que o trem instaurou após tantos anos indo e vindo a poucos metros, que aliadas aos insetos que perseguiam a família desde a sua concepção, tornaram-se marcas secretamente mortais. As telhas de barro moldadas com uma perfeição de dar inveja pelo audacioso primogênito artesão da 3ª geração começavam a cair, uma por uma, se partindo no chão de cimento liso, que mesmo após tantas brigas, guerras,mortes e acidentes, era virgem de sangue, qualquer que fosse, por qualquer circunstância que fosse. O vento entrava livre pelas janelas e portas que se tornaram praticamente inexistentes com o passar dos anos e batia docemente em seu rosto enrugado e carcomido pela vida de trabalho que levou. Criou filhos, netos, bisnetos, tataranetos e criaturas que nem ao menos tinham o seu sangue, com uma devoção tão absurda e genuína, que jamais percebeu todos os defeitos e vergonhas que estavam engarranchados no sobrenome que falava com tanto orgulho e paixão. Não que achasse que fosse de alguma forma nobre, mas tinha uma convicção tão absurda de que a família conservava seus princípios a todo custo, e que amavam o próximo mais do que poderiam amar a imagem de si mesmos, que criou em volta dos alicerces puídos da casa uma aura de perfeita harmonia, e pensaria para todo o que sempre que os filhos fora do casamento, as inúmeras concubinas e as moças que quase nunca se casavam puras não era faltas ou vícios da família, mas apenas vontades desgastantes que o destino jogava sobre a casa imaculada. Os olhos que a alma havia cegado de propósito não enxergavam o desabamento quase espontâneo que infundiu sobre a casa, e ela, mesmo que soubesse, não se importaria, por que era hora de partir. Junto com ela partiam a casa, o nome e tudo o mais que havia sido cultivado, não restando sequer destroços que comprovassem a existência de algum deles na face da terra, e isso, de certa forma, a acalmava. “Que será de todos eles se eu me for antes que tudo isso tenha um fim completo?” pensava ela todos os dias de sua vida ao se deitar na cama, e agora isso já não era uma preocupação, pois era a primeira que havia pisado aquela terra e era agora, comprovadamente a última que ali ficava. No começo pensou ter sido abandonada no quarto, mas percebeu que o movimento na casa diminuía com o passar dos solstícios, até que cessou, e naquela casa que mais parecia um museu, sobrou apenas ela, com seu corpo miúdo e curvado. Fechou os olhos como se fosse dormir, mas ciente que aquilo era na verdade a morte do seu ser. Disse adeus mentalmente e a casa se foi por completo, se tornando apenas poeira na terra, levando junto todas as lembranças da existência de seres tão complexos e admiráveis.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A Morte Do Coronel


“Senti todas as minhas forças se esvaindo do meu corpo, em uma rapidez tão fluida, que chegou a ser surpreendente. Naqueles instantes eu me perdia completamente de mim mesma, me perdia dos meus sonhos e das minhas vontades, eu perdia tudo. Não tinha vontades e nem desejos mais, só sentia o peso de um rotina completamente indiferente caindo sobre as minhas costas com um força inigualável. A única coisa que eu conseguia sentir era um desespero sem precedentes, que me fazia chorar por tudo e por nada, me fazia chorar até por não saber pelo que estava chorando. Eu não sentia tristeza, mágoa, dor, só sentia esse desgastante desespero crônico, que me atingia os ossos e a alma, fazendo com que eu me perdesse cada vez mais fundo na busca por algo que eu não sabia o que era. No princípio, tudo me pareceu rotineiro e eu não simplesmente ignorei o perigo que se aproximava. Aos poucos ele foi ganhando um poder extraordinário, e eu senti a necessidade de lutar, esperançosamente, contra aquela força inabalável que tomava conta do meu ser por completo. Foi em vão. A força misteriosa me tomou por inteiro, e toda a minha vida caiu por terra tão fácil e levemente que poderia ser uma pluma levada pelo vento. Não tinha mais força e já havia desistido de tudo, meu coração já era pedra e minha cabeça era automática, tudo que eu podia fazer era excretar as lágrimas que desciam todos os dias sem pedir licença. Me exilei de tudo e de todos, as companhias que antes eu apreciava imensamente, agora me causavam dores de cabeça e até repulsa, e as pequenas coisas com as quais eu costumava sentir prazer se tornaram indiferentes para mim. Eu vegetava em vida de uma forma estranha e completamente desconhecida, mas eu mal me importava em entender aquele vazio que me impedia até de desejar a morte. O desespero se esvaia com o tempo, dando lugar a um vazia que não impedia as lágrimas de projetarem cristalinamente em meus olhos do crepúsculo ao amanhecer. Eu tinha desistido de tudo, e por ter desistido, nem vergonha disso eu conseguia sentir. Não sei até hoje como consegui sentir o embalo rasgante que cortou o meu peito em dois e me trouxe as doces lembranças da vida antes que eu desse adeus a tudo que tinha sido e a todos que tinha conhecido. Meu peito se encheu, mais uma vez, de derrota, e borbulhando por dentro, meu coração deu a sua última batida. Não tive arrependimentos por que não tive culpa alguma, o meu destino era desistir, perder, me refugiar em lágrimas perdidas e vazios vorazes e dilacerantes. Continuo sem entender o que fiz para que a indiferença pairasse sobre a minha alma, mas não questiono a força que me fez morrer aos poucos, como nunca questionei neste meio século em que estive morto a respirar. Morro agora dizendo apenas um adeus e agradecendo ao mundo por ter me acolhido, e o perdôo também pelos desatinos, dores e vazios.”

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O quê?

Uns olhos, teus olhos. Castanhos, talvez verdes, meio cinzentos. São apenas olhos, ora bolas. Mentira, seus olhos são promessas não cumpridas, frustrações, lágrimas e tristeza, e não me venha com essa de que foi sem querer. Você quis, você quer, e vai continuar querendo, e ambos sabemos disso. Você quer outra e não a mim, você quer branco e não preto, você quer abraços e não quer beijos. Quando é que você vai tomar vergonha e dizer adeus pra sempre? Não me importa que venha a doer, só me interessa o fim. É isso, justifique os meios dando um fim a tudo, meu caro, eu prometo que vou entender, como sempre fingi entender, como sempre fingi não me importar. Se quer saber, nunca entendi por que você nunca se deu ao trabalho de explicar, como todos os outros, só que eu exijo uma explicação. Já! Ou pode ser amanhã, ou depois, ou ano que vem... Perdi a pressa depois de escrever essas palavras, decidi não me chatear. Aliás, acho que você já deu um fim. Foi tão gradativo que mal percebi. Um pequeno texto escrito de madrugada, meio frustrado, inalcançável, perdi o foco e mesmo assim não quis chorar. Só lembrei. Peço desculpas pela falta de nexo desde já.