Foi estranhamente desesperador saber que ele era o meu único fio de
vida, e ao mesmo tempo tudo aquilo me confortava. Fechei os olhos e mergulhei
esperando que seus braços gelados e compridos me erguessem com um puxão forte e
que a água desaparecesse e não fosse mais a imensidão que sempre havia sido.
Sempre foi um imenso pra mim, desde que eu era um botão e não uma flor, de mãos
dadas com o Rei Sol, mergulhando os pezinhos na água salgada e
insuportavelmente gelada para minha delicada pele de bebê, e ficou tudo ainda
maior quando eu só tinha ele a quem me segurar e esperava que o mar me levasse
para o fim, ou pelo menos para um novo começou depois de tudo. Senti a areia
roçar no meu pé, agora com a pele grossa por culpa da falta de zelo que sempre tive comigo mesma, e
com os olhos ainda fechados me lembrei das mais belas coisas do mundo e que
curiosamente haviam passado despercebidas por mim. Percebi que um grão podia
ser enorme e que uma gota poderia afogar, que explosões eram lindas em câmera
lenta, que abraços eram quentes como café e doces como alcaçuz, que o amor poderia matar
e ao mesmo tempo curar da morte, e percebi também, que enquanto eu tinha
devaneios debaixo da água, a vida continuava grave e profunda como sempre tinha
sido, que em todo lugar os relógios
ainda batiam a cada segundo que passava, alguém morria de alguma
forma e uma criança nascia de outra, e que a vida, por mais que eu tentasse, ia
continuar sendo igualmente insatisfatória, por que a própria vida era algo
insatisfatório e não havia nada que eu pudesse fazer. Desisti do socorro que
não chegava e bati os braços esperando a superfície chegar, e ela finalmente
chegou, muito antes dos braços gelados e compridos que nunca chegaram e nem iam
chegar, por que esperei demais de alguém que não esperava nada e nem nunca
esperaria. Quando abri os olhos tudo brilhava como nunca tinha brilhado, talvez
por que o único fio que antes me segurava á vida tinha arrebentado e agora era
eu quem me segurava á vida. Eu não sabia direito que era, só sabia que era o
certo, e que dali em diante em começava a viver como nunca tinha vivido. E que a verdade seja dita: eu nunca tinha realmente vivido.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
domingo, 19 de fevereiro de 2012
Destroços da Perda
A senilidade que o tempo
lhe deu de presente e a incapacidade física de se locomover que a haviam prendido na cama não permitiram que
percebesse a quantidade extensa de mudanças que aconteciam ao seu redor,
destroçando, tanto em modo figurado como literal, as estruturas do lar que
cultivou por tanto tempo quanto lhe foi possível. As paredes centenárias desabavam
sem consolo e nunca se soube ao certo se foi pela desesperança cultivada pelos
gritos e choros que deram fim á estirpe fanática que ali se criou e se perdeu
ou se foram as rachaduras que o trem instaurou após tantos anos indo e vindo a
poucos metros, que aliadas aos insetos que perseguiam a família desde a sua
concepção, tornaram-se marcas secretamente mortais. As telhas de barro moldadas
com uma perfeição de dar inveja pelo audacioso primogênito artesão da 3ª
geração começavam a cair, uma por uma, se partindo no chão de cimento liso, que
mesmo após tantas brigas, guerras,mortes e acidentes, era virgem de sangue,
qualquer que fosse, por qualquer circunstância que fosse. O vento entrava livre
pelas janelas e portas que se tornaram praticamente inexistentes com o passar
dos anos e batia docemente em seu rosto enrugado e carcomido pela vida de
trabalho que levou. Criou filhos, netos, bisnetos, tataranetos e criaturas que
nem ao menos tinham o seu sangue, com uma devoção tão absurda e genuína, que
jamais percebeu todos os defeitos e vergonhas que estavam engarranchados no
sobrenome que falava com tanto orgulho e paixão. Não que achasse que fosse de
alguma forma nobre, mas tinha uma convicção tão absurda de que a família
conservava seus princípios a todo custo, e que amavam o próximo mais do que
poderiam amar a imagem de si mesmos, que criou em volta dos alicerces puídos da
casa uma aura de perfeita harmonia, e pensaria para todo o que sempre que os
filhos fora do casamento, as inúmeras concubinas e as moças que quase nunca se
casavam puras não era faltas ou vícios da família, mas apenas vontades
desgastantes que o destino jogava sobre a casa imaculada. Os olhos que a alma
havia cegado de propósito não enxergavam o desabamento quase espontâneo que
infundiu sobre a casa, e ela, mesmo que soubesse, não se importaria, por que
era hora de partir. Junto com ela partiam a casa, o nome e tudo o mais que
havia sido cultivado, não restando sequer destroços que comprovassem a
existência de algum deles na face da terra, e isso, de certa forma, a acalmava.
“Que será de todos eles se eu me for antes que tudo isso tenha um fim
completo?” pensava ela todos os dias de sua vida ao se deitar na cama, e agora
isso já não era uma preocupação, pois era a primeira que havia pisado aquela
terra e era agora, comprovadamente a última que ali ficava. No começo pensou
ter sido abandonada no quarto, mas percebeu que o movimento na casa diminuía
com o passar dos solstícios, até que cessou, e naquela casa que mais parecia um
museu, sobrou apenas ela, com seu corpo miúdo e curvado. Fechou os olhos como
se fosse dormir, mas ciente que aquilo era na verdade a morte do seu ser. Disse
adeus mentalmente e a casa se foi por completo, se tornando apenas poeira na
terra, levando junto todas as lembranças da existência de seres tão complexos e
admiráveis.
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
A Morte Do Coronel
“Senti todas as minhas forças se esvaindo do meu corpo, em uma rapidez
tão fluida, que chegou a ser surpreendente. Naqueles instantes eu me perdia
completamente de mim mesma, me perdia dos meus sonhos e das minhas vontades, eu
perdia tudo. Não tinha vontades e nem desejos mais, só sentia o peso de um
rotina completamente indiferente caindo sobre as minhas costas com um força
inigualável. A única coisa que eu conseguia sentir era um desespero sem precedentes,
que me fazia chorar por tudo e por nada, me fazia chorar até por não saber pelo
que estava chorando. Eu não sentia tristeza, mágoa, dor, só sentia esse
desgastante desespero crônico, que me atingia os ossos e a alma, fazendo com
que eu me perdesse cada vez mais fundo na busca por algo que eu não sabia o que
era. No princípio, tudo me pareceu rotineiro e eu não simplesmente ignorei o
perigo que se aproximava. Aos poucos ele foi ganhando um poder extraordinário,
e eu senti a necessidade de lutar, esperançosamente, contra aquela força
inabalável que tomava conta do meu ser por completo. Foi em vão. A força
misteriosa me tomou por inteiro, e toda a minha vida caiu por terra tão fácil e
levemente que poderia ser uma pluma levada pelo vento. Não tinha mais força e
já havia desistido de tudo, meu coração já era pedra e minha cabeça era
automática, tudo que eu podia fazer era excretar as lágrimas que desciam todos
os dias sem pedir licença. Me exilei de tudo e de todos, as companhias que
antes eu apreciava imensamente, agora me causavam dores de cabeça e até
repulsa, e as pequenas coisas com as quais eu costumava sentir prazer se
tornaram indiferentes para mim. Eu vegetava em vida de uma forma estranha e
completamente desconhecida, mas eu mal me importava em entender aquele vazio
que me impedia até de desejar a morte. O desespero se esvaia com o tempo, dando
lugar a um vazia que não impedia as lágrimas de projetarem cristalinamente em
meus olhos do crepúsculo ao amanhecer. Eu tinha desistido de tudo, e por ter
desistido, nem vergonha disso eu conseguia sentir. Não sei até hoje como
consegui sentir o embalo rasgante que cortou o meu peito em dois e me trouxe as
doces lembranças da vida antes que eu desse adeus a tudo que tinha sido e a
todos que tinha conhecido. Meu peito se encheu, mais uma vez, de derrota, e
borbulhando por dentro, meu coração deu a sua última batida. Não tive
arrependimentos por que não tive culpa alguma, o meu destino era desistir,
perder, me refugiar em lágrimas perdidas e vazios vorazes e dilacerantes.
Continuo sem entender o que fiz para que a indiferença pairasse sobre a minha
alma, mas não questiono a força que me fez morrer aos poucos, como nunca
questionei neste meio século em que estive morto a respirar. Morro agora
dizendo apenas um adeus e agradecendo ao mundo por ter me acolhido, e o perdôo
também pelos desatinos, dores e vazios.”
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
O quê?
Uns olhos, teus olhos. Castanhos, talvez verdes, meio cinzentos. São apenas olhos, ora bolas. Mentira, seus olhos são promessas não cumpridas, frustrações, lágrimas e tristeza, e não me venha com essa de que foi sem querer. Você quis, você quer, e vai continuar querendo, e ambos sabemos disso. Você quer outra e não a mim, você quer branco e não preto, você quer abraços e não quer beijos. Quando é que você vai tomar vergonha e dizer adeus pra sempre? Não me importa que venha a doer, só me interessa o fim. É isso, justifique os meios dando um fim a tudo, meu caro, eu prometo que vou entender, como sempre fingi entender, como sempre fingi não me importar. Se quer saber, nunca entendi por que você nunca se deu ao trabalho de explicar, como todos os outros, só que eu exijo uma explicação. Já! Ou pode ser amanhã, ou depois, ou ano que vem... Perdi a pressa depois de escrever essas palavras, decidi não me chatear. Aliás, acho que você já deu um fim. Foi tão gradativo que mal percebi. Um pequeno texto escrito de madrugada, meio frustrado, inalcançável, perdi o foco e mesmo assim não quis chorar. Só lembrei. Peço desculpas pela falta de nexo desde já.
Assinar:
Comentários (Atom)