segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

A Cruz e a Espada

Entre a cruz e a espada,
o que é incógnito é apenas sonho,
mortalmente curioso.

Entre a cruz e a espada,
jaz o que chamo de alma,
jaz o que chamo de medo,
jaz o que chamaram de desejo.

Eu sou minha própria espada,
meu desejo é minha única cruz.

O que eu sou por inteiro
se despedaça a cada segundo,
e eu só consigo me crucificar
por medo da espada.

Eu estou entre a cruz e a espada.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

A borda

Um deus me deu borda,
e sem ela eu transbordo.

Sem ela eu me desperdiço,
me esparramo no chão,
como quem quer tudo
e não faz nada..

Sem a borda,
eu realmente não sou nada.
Não sou cinto,
não sou corda,
não sou cadarço.

Sem a borda,
eu não sou nada.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Da Vida e Outros Demônios

Se eu soubesse antes dos demônios que pairam entre nós, eu o teria colocado no colo e colhido teus cachos e fingiríamos que estava tudo bem. Espero que não seja tarde demais para exorcizá-los, meu bem, espero que não seja tarde demais para derramarmos aquelas lágrimas contidas, espero que não seja tarde demais para chorar a morte.
A morte. Então ela se abate com força sobre nós e os demônios do passado, o frio aparece e nos congela, revelando espectros azulados sobre a madeira escura do chão da sua sala. Os demônios vão voltar e a morte chegou, nós vamos continuar aqui por quanto tempo mais, meu bem? Fique em silêncio mais um pouco.
Nosso reflexo desaparece e você sabe o que é. É hora de partir e se arrepender, os demônios não vão embora mas a vida se foi, junto com o brilho dos teus olhos e a cor dos seus cachos. Nossos corações já não batem e você vai desaparecendo do meu colo. Meu bem, agora eu sei, é tarde demais para chorar as dores e exorcizar as tristezas.
Enquanto o trato secreto nos separa ainda mais, ficamos cada vez mais mortos um para o outro, e depois desmortos para o resto do mundo. Eu finalmente consigo concluir o que pensei quando você sorriu e confessou a sua tormenta particular: a vida era um dos nossos demônios e a exorcizamos sem medir as consequências, meu bem. Não adianta segurar firme a minha mão, mas segura o que era teu junto comigo, vamos nos encontrar mais tarde, quem sabe.
Você se foi antes do sol nascer, e eu, de certa forma também. Os demônios ficaram e a morte continua aqui. Não sinto mais medo dos espectros, espero encontrar você sobre a madeira escura também, mas o dia em que fomos alguém parece tão distante que chega a ser outra vida. Me dei conta de que realmente foi em outra vida, meu bem, e nada mais nos pertence além de nós mesmos, ou pelo menos o que restou de nós.
Talvez seja melhor dizer adeus e sofrer a perda do que imaginar encontros impossíveis. Talvez seja melhor aceitar logo os fatos. É melhor aceitar logo os fatos. A morte era um sopro e nós um dia fomos a vela acessa, ou quem sabe, meu bem, a vida é que era um sopro e a nossa vez já passou. Chora miúdo como eu, mas vamos parar de nos matar ainda mais com esperanças, de uma vez por todas.

Esta é a Vida e todos os seus demônios.